Um olhar crítico sobre a baixada santísta e o mundo

15.9.06

NOVO ENDEREÇO

O blog O Bruxo de Santos a partir de hoje estará em um novo endereço:

http://www.obruxodesantos.haaan.com/

Além de um novo visual, o blog agora conta com mais recursos como arquivamento dos posts em categorias, registro de visitas etc...

Gostaria de agradecer ao Kentaro Mori resposnsável pelo Projeto Haaan e o site Ceticismo Aberto por toda a ajuda prestada.

Shoko Asahara é condenado à forca no Japão

A Corte Suprema do Japão ratificou hoje a condenação à morte de Shoko Asahara, o guru da seita Verdade Suprema, autora dos ataques com gás sarin ao metrô de Tóquio, que causou 12 mortes e afetou cerca de 6 mil pessoas em 1995.

Com a decisão se esgotam todos os recursos judiciais possíveis. Asahara, de 51 anos, será enforcado, conforme a sentença do Tribunal Provincial de Tóquio, de 27 de fevereiro de 2004.

O atentado contra o metrô, de uma magnitude sem precedentes no Japão, mostrou a vulnerabilidade do país ao terrorismo e alertou as autoridades para o perigo das seitas com tendências apocalípticas.

Os advogados da defesa basearam sua estratégia na suposta doença mental de Asahara, que afirmaram ser incapaz de responder a um processo judicial.

Além disso, insistiram na sua inocência, sustentando que a culpa do ataque e de outros crimes cometidos pela seita era de seus seguidores, dos quais 13 também foram condenados à morte.

Asahara, cujo nome real é Chizuo Matsumoto, foi condenado por 13 crimes, que provocaram a morte de 27 pessoas. As vítimas foram, em sua maioria, advogados dos dissidentes da organização e de pessoas que lutavam legalmente contra as lavagens cerebrais praticadas pela seita.

14.9.06

Ciúme faz brasileira queimar casa de padre na Itália

A ex-freira brasileira Silvia Gomes de Souza, 39 anos, está sendo acusada de incendiar a casa onde, supostamente, mantinha encontros amorosos com um padre na Sicília. A advogada da brasileira, Daniela Agnello, disse que sua cliente teria agido "por ciúmes", depois de flagrar o amante com outra mulher.

"Ela queria incendiar apenas os eletrodomésticos que havia comprado para a residência, pois não gostaria que nenhuma outra pessoa os utilizasse", disse Agnello. Os bombeiros conseguiram impedir que a casa, na cidade de Nizza Di Sicilia, de apenas 3,5 mil habitantes, fosse destruída.
Segundo o jornal italiano Gazzetta del Sud, a brasileira teria dito "eu o amo, mas, mais cedo ou tarde, o mato", enquanto era levada para a delegacia. Os policiais teriam descoberto uma faca escondida no sutiã dela. A primeira audiência do processo, em que é acusada de incêndio doloso e porte de arma branca, será no dia 18 de setembro.

A advogada contou que Silvia conheceu Don Carmelo, italiano, 70 anos, quando ela começou a trabalhar na cidade como acompanhante de um idoso com problemas de saúde. A brasileira de Altonia, estado do Paraná, era uma ex-freira de um convento em Roma. "Ela me contou que sofria maus tratos na clausura, por isso foi embora", explicou a advogada.

A aproximação com Don Carmelo ocorreu porque o padre ia, frequentemente, à casa onde ela morava, para fazer a confissão e a comunhão do idoso sob seus cuidados. Quatro anos atrás, o idoso faleceu, e Silvia ficou sem emprego. O padre ofereceu-lhe, então, uma casa, comida e salário de 700 euros para que ela fosse a "governanta" de sua residência em Roccalumera, em contrato registrado em cartório.

Segundo a advogada, para manter a brasileira legalmente na Itália, o padre teria encontrado um italiano disposto a se casar com ela. "Ela me disse que (Don Carmelo) arrumou um marido italiano para a minha cliente para garantir a permissão oficial de continuar no país sem ser uma clandestina", contou a advogada Daniela Agnello.

Para encobrir a relação, segundo o jornal, o padre passava muito tempo na paróquia de Nizza di Sicilia, um vilarejo vizinho. A advogada conta que, durante o período em que estiveram juntos, a brasileira teria tido dois abortos naturais. "Os filhos seriam dele", disse Daniela Agnello.

Mas, ainda segundo a advogada, o padre passou a ter um caso com outra mulher, casada. Don Carmelo acabou demitindo Sílvia e terminando o romance. Depois do incidente, Don Carmelo desapareceu sem fazer denúncia contra a brasileira, que ainda mora na casa incendiada.

A brasileira está em liberdade sob vigilância e deverá prestar depoimento ao juiz Antonino Giacobello, da província de Messina, em audiência marcada para o dia 18 de setembro. A igreja não se pronunciou sobre o assunto.

BBC Brasil

Mullher é ferida em exorcísmo na Universal










A Igreja Universal do Reino de Deus terá de pagar indenização a mulher que, em sessão de exorcismo, teve lesão permanente no punho em um culto no Espírito Santo. Segundo o site do Superior Tribunal de Justiça (STJ), a instituição deverá pagar uma indenização de R$ 10 mil e um valor mensal até que a vítima complete 65 anos de idade.

Durante um culto na igreja, M. D. da S., então com 48 anos, foi citada pelo pastor João Carlos Von Helde Alves vomo uma pessoa "possuída pelo demônio". Durante a sessão de exorcismo, o pastor utilizou-se de movimentos bruscos que acabaram derrubando a fiel. Na queda, a vítima alega ter fraturado o punho da mão esquerda. Mesmo tendo reclamado de dores, o pastor continuou o exorcismo e bateu com a mão dela seguidas vezes contra a cruz do altar, agravando a lesão.

A mulher entrou com ação contra a igreja alegando que foi forçada a interromper suas atividades como doceira. Em um primeiro acordo com a igreja, ela recebeu R$ 600 em três parcelas mensais e sucessivas, mais três cestas básicas. A sentença julgou o pedido procedente e condenou a Igreja Univeral a pagar pensão mensal vitalícia à vítima em um valor equivalente a 60% do salário mínimo vigente à época do pagamento e fixou a reparação por dano moral em R$ 10 mil.

A Igreja Universal alegou que a decisão teria sido exacerbada, mas teve recurso negado pelo STJ. Para a igreja, a queda de Marina não teve qualquer relação com o ato praticado pelo pastor.

6.9.06

Renoir é pós-moderno!

Um amigo espírita apontou os vídeos abaixo como “provas” de mediunidade. Segundo ele é um legítimo caso de psicopictógrafia!

Vídeo 1
Vídeo 2

O médium alega pintar quadros incorporando o espírito do pintor impressionista Pierre Auguste Renoir morto em 1919!!
Comparem os quadros supostamente pintados pelo espírito de Renoir com um legítimo - obviamente pintado em vida - Renoir abaixo. Não é incrível como Pierre Auguste Renoir depois de morto ficou pós-moderno!!

Le Moulin de La Galette, Renoir 1876


Rosa e Azul, Renoir 1881

O suposto médium, ao que tudo indica, tem sim talento para pintura, conseguindo até fazer quadros em poucos minutos, mas não há nada de extraordinário ou mesmo um “prova” de que existam espíritos.

Existem pessoas que tem (ou desenvolveram) as mais variadas formas de talento. Vejam os exemplos abaixo:

Tocando violão com os pés
Tocando duas guitarras ao mesmo tempo

Tudo isso só prova a incrível capacidade humana e não mediunidade.

Evangélicos presos por pedofilia

CÍNTIA ACAYABA
da Agência Folha

A Polícia Federal prendeu nesta segunda-feira, em Paranaguá (98 km de Curitiba), um casal de pastores evangélicos acusado de pedofilia.

O pastor Francisco Vicente Corrêa Filho, 57, é acusado de estuprar pelo menos dez meninas, com idades entre 10 anos e 13 anos. A mulher dele, Elizabeth Graff, 41, é apontada pela PF como colaboradora dos crimes e aliciadora das meninas.

Eles foram presos às 9h em casa, no bairro Ilha dos Valadares. No local, a PF encontrou revistas pornográficas e fotos de sexo explícito.

A investigação começou há seis meses a partir de denúncias anônimas feitas à PF. As vítimas foram ouvidas pela primeira vez hoje pelo delegado João Augusto Carvalhal Santos e confirmaram que o pastor as forçava a praticar sexo.

“Cumprimos mandado de prisão preventiva dos dois para eles não influenciarem nos depoimentos das vítimas. No início, elas negaram, porque os pastores eram respeitados pela comunidade, mas depois confessaram que praticaram sexo com o pastor”, disse o delegado.

No depoimento, de acordo com o delegado, as vítimas relataram que Corrêa incorporava um anjo chamado de “executor” que o enfraquecia. Para recuperar a força, as meninas deveriam fazer sexo com ele, se elas recusassem ou contassem a alguém o que ocorria, o pastor as ameaçava e dizia que o anjo traria doenças e outras mazelas para as famílias.

“As práticas sexuais ocorriam com certa freqüência, principalmente quando havia o estudo da Bíblia. Além de fazer sexo com o pastor, elas eram obrigadas a se relacionar com quem ele indicasse e ainda a assistir às cenas”, disse Santos.

As práticas sexuais ocorriam no terreno da igreja. “Eles devem responder por crimes previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente, como estupro presumido e cooptação de menores. Eles podem pegar mais de 30 anos [pena máxima]”, disse Santos.

Para o advogado do casal, Werner Kovaltchuk, trata-se de uma “divergência interna na igreja”. “Não há elementos concretos, apenas depoimentos. Quando tomar conhecimento real da situação, pedirei a revogação da prisão preventiva”, disse Kovaltchuk.

O casal será encaminhado para a Cadeia Pública de Paranaguá.

Igreja

Há cinco anos, o casal fundou a Igreja do Supremo Amor de Cristo. Côrrea é aposentado do Corpo de Bombeiros e recebe pensão por invalidez, e Graff estudou enfermagem.

A igreja tem CNPJ, mas segundo a PF não era vinculada a nenhuma ordem religiosa.

O templo tem cerca de 50 fiéis e funciona no terreno da casa dos pastores. “Eles tinham forte influência sobre a comunidade. Devem ter feito lavagem cerebral nas pessoas”, disse o delegado Santos.

31.8.06

30.8.06

Vídeo de suposto monstro gera boatos monstruosos


Nas últimas semanas foi divulgado na internet o vídeo de um suposto “monstro” encontrado em Manaus. Não demorou muito e as mais diversas "explicações" começaram a correr na grande rede. Uma das mais engraçadas sugere que o ser mostrado no vídeo é na verdade um ser alienígena.

Apesar de não podemos descartar essa possibilidade o moderador da lista de discussão Ceticismo Aberto, Homero Ottoni Jr, nos fornece uma explicação mais prosaica, mas nem por isso menos intrigante:

“ O vídeo, na verdade, mostra um filhote de gato nati-morto com um teratoma (teratologia é a área médica que estuda essa má-formações). Ou melhor, é um teratoma, uma má formação genética que deforma o feto. Existem diversos tipos de teratomas sendo o mais impressionante, inclusive por ocorrerem em seres humanos, o teratoma causador da ciclopia. E é isso mesmo que parece, um único olho na testa, como os lendários cíclopes. O termo TERA sugere monstruosidade, como em TeraBytes, um número "monstro" de grande" .

Abaixo estão alguns outros exemplos de teratomas (cuidado: as imagens são fortes)

http://www.fo.usp.br/lido/patoartegeral/patoartecres2.htm
http://teratology.org/
http://en.wikipedia.org/wiki/Teratology

23.8.06

Historia das psicofotografias














Excelente texto publicado em um blog cético latino - Marcianitos Verdes - que conta a história das psicofotografias ou como é mais conhecida no Brasil "fotos de fantásmas"...

Trecho:

" Si la historia de la psicofotografía se parece al de la moderna ufología no es simple coincidencia, es la naturaleza humana. "

16.8.06

Mercadores de órgãos

Na coluna da semana passada, discorrendo sobre a prostituição, citei a frase "por que é ilegal vender algo que pode ser dado de graça totalmente dentro da lei?", atribuída ao comediante norte-americano George Dennis Carlin. Ato contínuo, o leitor Roberto Takata estocou: "Isso significa que a venda de órgãos humanos deveria ser permitida (uma vez que a doação é permitida e incentivada) ou mesmo o comércio de bebês (uma vez que é permitido aos pais darem sua criança para adoção)?" Aceito a provocação.
Talvez eu vá chocar alguns leitores, mas não vejo problemas maiores na comercialização de órgãos. Já em relação à venda de bebês, acredito que haja, sim, um impeditivo ético. Agora só falta explicar por quê.
O ponto central de meu raciocínio é a convicção filosófica de que cada indivíduo deve ser livre para dispor de seu próprio corpo. Mais do que isso até, a maioria de nós extrai seu sustento alienando partes de si mesmo. Um aluga sua força de trabalho para o empregador, outro faz sexo em troca de dinheiro, e um terceiro prefere vender seu rim. No fundo, a principal diferença entre o primeiro e o terceiro é que este recebe à vista. Cada qual tem seus próprios valores e apetites e é o único capacitado para julgar quanto está disposto a sacrificar e a que preço.
A mesma lógica não se aplica ao tráfico de bebês pela simples razão de que o indivíduo só pode dispor livremente de si mesmo, não de terceiros. Ignorar essa regra violaria o imperativo categórico kantiano que determina que tratemos nossos semelhantes como sujeitos e não como meios.
Posso legitimamente vender esperma a um banco de sêmen, comprar um óvulo ou até contratar uma barriga de aluguel para gerar um filho, mas o bebê, a partir do nascimento com vida, é um titular de direitos idênticos aos meus. O Estado não pode admitir que ele seja objeto de compra e venda, sob pena de reinstaurar um tipo de escravidão.
Um supermercado de crianças no qual cada item venha com uma etiqueta de preço e um código de barras é um pesadelo bioético. Mas, só para complicar um pouco mais a questão, pergunto ao leitor se é tão errado assim que um casal infértil ansioso para amar um filho se disponha a pagar alguns milhares de dólares por um bebê (valor não muito diferente daquele gasto num parto em hospital particular). E a mãe biológica que aceita dinheiro para entregar seu filho, mas convicta de que lhe está assegurando um futuro melhor, será que merece ir para a cadeia?
Voltando aos transplantes, é claro que o problema não é tão simples como minha primeira abordagem pode ter dado a entender. Se a única forma de obter um órgão fosse recorrer ao "mercado" viveríamos uma situação a meu ver absolutamente indesejável em que apenas os mais ricos teriam acesso a esse gênero de terapia. Ocorre que não precisamos "privatizar" inteiramente o o sistema. Admitir doações intervivos mediante pagamento não implica pôr um fim à atual rotina pela qual os órgãos provenientes de cadáveres são distribuídos através de uma lista pública, à qual todos têm as mesmas chances de acesso, independentemente de renda ou conexões políticas (em teoria, é claro).
Outra objeção sempre levantada quando se fala em comercialização de órgãos prega que uma pessoa com dificuldades econômicas se veria compelida a vender uma parte de si mesma para resolver seu problema, no que configuraria uma espécie de extorsão orgânica. Essa é, evidentemente, uma tremenda falácia. Muita gente passa por constrangimentos financeiros (a maioria da população, ouso dizê-lo), mas nem por isso sai por aí roubando, se prostituindo ou vendendo pedaços do corpo e filhos no mercado negro (que já existe). Ainda que muitos ficassem tentados a trocar um rim por alguns milhares de reais, não vejo por que tirar-lhes o direito de decidir por si mesmos, o que, de resto, teria como subproduto a melhora da qualidade de vida de milhares de pacientes renais crônicos e de alguns hepatopatas terminais que poderiam beneficiar-se de transplantes parciais de fígado.
Existe um outro sofisma, sempre repetido, segundo o qual a criação de um mercado de órgãos estimularia assassinatos. Por essa lógica, deveríamos proibir os seguros de vida, o mais direto dos incentivos ao homicídio. Crimes relacionados à doação, como o tráfico ilegal e a retirada não-autorizada, devem ser combatidos em sua especificidade. "Abusus non tollit usus", diziam os romanos.
A legislação brasileira, contudo, veda inteiramente a comercialização de órgãos, no que imita diplomas da vários países. Não vou abordar aqui as razões pelas quais a simples idéia de vender um rim ou um pedaço do fígado nos causa tanta ojeriza. Percebo, entretanto, uma certa assimetria aqui. Se o médico e sua equipe podem ser remunerados por realizar um transplante, se o hospital e os laboratórios que produzem as drogas imunossupressoras também ganham com o procedimento, por que só o doador deve ser excluído dos lucros? Se é o altruísmo que deve animar o processo, por que não aplicá-lo a todas as partes envolvidas?
No Brasil, a regulação é dada principalmente pela lei nº 9.434/97 modificada pela 10.211/01. Ela prevê, para quem compre ou venda tecido, órgão ou parte, de 3 a 8 anos de reclusão. Na mesma pena incorre quem intermedeia, facilita ou aufere vantagem com a transação. O médico que faz a cirurgia sabendo-a em desacordo com esse tópico da legislação pega de 1 a 6 anos. Para garantir que não se façam negócios por debaixo do pano, doações intervivos só são permitidas entre cônjuges e parentes consangüíneos até o 4º grau (inclusive). Nos demais casos, exige-se autorização judicial (exceto para doação de sangue e medula óssea).
A peça até que tenta formar um todo coerente, mas o resultado deixa a desejar. Antes de mais nada, não faz muito sentido condenar alguém que tenta garantir a própria sobrevivência. O Direito qualifica essa situação como estado de necessidade e costuma isentar de pena autores de crimes cometidos nessa condição. No mais, ela burocratiza demais os procedimentos para doações eventualmente legítimas. Se eu quiser fornecer um rim para meu melhor amigo ou para um parente próximo não-consangüíneo (enteado, madrasta, cunhado, por exemplo), preciso da autorização de um magistrado. E o tempo da Justiça, que no Brasil se mede em anos (semanas, vá lá, no caso de emergências), não é o tempo da medicina, que é dado em horas.
As normas também dificultam uma nova modalidade de transplante, as doações pareadas, que são consideradas éticas mesmo segundo os critérios mais conservadores. Nesse tipo de procedimento, junta-se um par com parentesco mas sem histocompatibilidade com outro nas mesmas condições. Se houver compatibilidade cruzada (isto é, o doador do primeiro par com o receptor do segundo e vice-versa), realizam-se as duas cirurgias concomitantemente. Todos saem felizes e a fila diminui. No Brasil, seria preciso acionar a Justiça para realizar a dupla troca.
Não estou entre os que acreditam que o mercado é capaz de resolver todos os males. Freqüentemente, tudo o que ele faz é adicionar novas complicações às que já existiam. Mas não vejo nenhuma razão para impedir alguém de vender a um desconhecido tecidos ou órgãos que podem perfeitamente ser dados de graça a um parente. Por que o gesto altruístico e desinteressado seria melhor do que o pecuniariamente motivado? Quem doa órgão a um parente ou mesmo o bom samaritano que oferece de graça parte de si a um completo desconhecido não está tentando aplacar sua própria consciência ou obter uma vaguinha no céu? Essas são recompensas que talvez não possam ser exprimidas monetariamente, mas que, nem por isso, deixam de ter alto valor. Será que existe mesmo um gesto desinteressado?
Parece-me tão mais simples - e honesto - admitir que este é mesmo um mundo imperfeito no qual virtualmente todas as relações são mediadas por interesses materiais ou psíquicos e, de posse desse diagnóstico, tentar promover o maior grau possível de satisfação para o maior número possível de pessoas.

Hélio Schwartsman, 40, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.