Um olhar crítico sobre a baixada santísta e o mundo

13.9.05

Entrevista: Leonardo Stern















Leonardo Stern é secretário do Inter Psi, grupo que estuda cientificamente as alegações paranormais, e é também moderador da lista de discusão Ceticísmo Aberto e pesquisador membro da Parapsychological Association, e nos concedeu a seguinte entrevista onde fala sobre James Randi e seu desafio de 1 milhão de dólares, e sobre o conceito de "fantasma na máquina" abordado no livro Tábula Rasa do neurologista Steven Pinker:

O BRUXO: Como você vê o trabalho do James Randi, a sua fundação e o seu famoso desafiu de 1 milhão de dólares?

LEONARDO: Sou totalmente favorável ao trabalho do Randi, acho otrabalho dele sensacional e admiro a agilidade mental e o preparo que ele demonstra ao desmascarar alguns charlatões. Apesar de existir um certo sensacionalismo e de espetáculo em torno do seu trabalho, mas acredito que são ingredientes necessários para que se consiga algum espaço na mídia televisiva (sobretudo na americana) e que isso vem sendo feito adequadamente por Randi.

Randi já deu algumas “pisadas de bola” e para aumentar a credibilidadede seu trabalho acredito que ele deveria buscar mais apoio junto a Parapsychological Association e escalar um time de consultores filiados a esta instituição. Estes consultores garantiriam maior imparcialidade das pesquisas e diminuiriam as chances de uma declaração incorreta ou desatualizada ser divulgada.

O BRUXO: Você poderia detalhar essas “pisadas de bola” do James Randi?

LEONARDO: Existem alguns incidentes que deixam margem à dúvidas sobre a total isonomia do trabalho desenvolvido por Randi. Rupert Sheldrake, por exemplo, afirma que Randi desqualificou um vídeo contendo um experimento envolvendo cães mas na verdade não teria nem ao menos assistido ao vídeo.
http://www.sheldrake.org/controversies/randi.html
Existem outra alegações parecidas ... se estão falando a verdade ou não, não temos como saber ao certo e nem é de meu interesse pesquisar a fundo estas questões. Por outro lado, existem críticas mais sérias e relevantes que envolvem desatualização, desinformação e precipitação por parte de Randi. Parece ser o caso da pesquisa envolvendo Ted Sérios, mencionada no link abaixo : http://listas.pucsp.br/pipermail/pesquisapsi/2001-December/001098.html
Um resumo de outros possíveis casos, pode ser encontrado em :http://listas.pucsp.br/pipermail/pesquisapsi/2003-October/007474.html
Desconheço qualquer alegação séria de que Randi tenha fraudado ou tenha cometido algum desvio mais sério, o tipo de crítica apontada no exemplo do caso Ted Sérios indica que Randi precisa se integrar mais a comunidade psi e de forma nenhuma invalida ou lança dúvidas sobre o excelente trabalho realizado por ele e sua fundação.

O BRUXO: Imagino haver uma diferença substancial entre o trabalho dele e do Inter Psi. Me parece, posso estar errado, mas a Fundação James Randi não faz pesquisa Psi, limitando-se a apenas receber pessoas com alegações de poderes paranormais para testes.

LEONARDO: Embora Randi não faça parte da comunidade psi, que publica artigos e participa de experimentos conjuntos, defendo que trata-se de um pesquisador psi genuíno. O Inter Psi define Pesquisa Psi como investigação de alegações de parnormal e é exatamente isto é feito pela fundação Randi. A principal diferença residiria na formação básica dos pesquisadores e na composição dos grupos de pesquisa. No Inter Psi procuramos manter contato com grupos céticos, conhecer a literatura cética e convidar céticos para participarem de experimentos (embora também sejamos céticos, estamos nos refirindo a ativistas céticos), tenho impressão que o inverso não é verdadeiro.
Outra diferença importante é que apesar de investigar alegações deparanormal, o Inter Psi reconhece e apóia a pesquisa experimental que é independende das existência alegações paranormais. O acúmulo de relatos coletados pelo pesquisadores permitiu a identificação de similaridades e classificação dos relatos A identificação de fatores comuns deu origem a teorizações sobre a existência de um fenômeno anômalo real que seria responsável por algumas das alegações de paranormal. Experimentos que buscam testar estas teorizações se tornaram praticamente independentes das alegações e são muito freqüentes atualmente. Pelo que sei, a Fundação Randi não participa de tal linha de pesquisa.

O BRUXO:É por isso que você disse que seria interessante ele se aproximar da Parapsychological Association? Já foi feito isso? Saberia dizer qual a posição dele diante da Pesquisa Psi internacional?

LEONARDO: A aproximação de Randi seria interessante devido aos interesses comuns entre os dois grupos. A Parapsychological Association mudou de Perfil nas últimas décadas de forma a não ser mais possível confrontar ou estabelecer um divisão entre céticos e pesquisadores psi , isto é, muitos pesquisadores psi também são céticos (infelizmente não são todos) e os principais experimentos executados apresentam o rigor exigido pelos céticos.
Randi é amigo de Stanley Krippner, um importante pesquisador da área e um dos precursores dos experimentos Ganzfeld. Randi respeita muito o trabalho de Krippner assim como Krippner também respeita o trabalho de Randi. Notas sobre o encontro de Randi, Beloff e Krippner em 1982[ http://www.randi.org/jr/082302.html ] (perto do meio da página)
Através de Krippner, parece que Randi passou a considerar a comunidadepsi internacional e a convidar alguns pesquisadores para avaliarem e desenvolverem seus experimentos mas, ainda sim, existe uma grande distância entre a Fundação Randi e a comunidade psi ... Randi não publica seus experimentos nas revistas especializadas (dentre eles : Journal of Parapsychology, European Journal of Parapsychology, American Journal of Psychical Research). Há de se reconhecer que a comunidade também não se aproximou de Randi visto que os experimentos de Randi são pouco comentados ou referenciados nos periódicos.

O BRUXO:Do jeito como está, o desafio do James Randi se presta a apenas desmascarar charlatões e/ou pessoas que crêem sinceramente ter algum "poder paranormal" (o que já é de bom tamanho), ficando a busca do fator Psi a cargo de grupos como o seu. Pelo menos é assim que vejo a situação atual.

LEONARDO:Exatamente!

O BRUXO: Eu estou lendo no momento o livro Tábula Rasa de Steven Pinker. Na sua opinião podemos dizer que não existe um fantasma na máquina (uma alma separada do corpo)?
LEONARDO:Por incrível que pareça não li o livro, embora tenha ouvido falarem muito bem. É uma ótima dica de leitura, fico grato por você ter me lembrado dele.
Acredito que as pesquisas atuais ainda são insuficientes para um posicionamento seguro sobre a questão mas eu avalio que o quadro atual favorece uma interpretação puramente mecanicista do cérebro do ser humano. Apoio minha opinião em fenômenos como a "síndrome da mão estrangeira", doenças mentais em geral, a influência de determinados medicamentos em relação ao humor, os vícios, o efeito alucinógeno das drogas.
Mesmo na Pesquisa Psi os indícios de existência de psi apontam para um fenômeno inconsciente e involuntário. Apesar dos indícios considero a questão aberta. Pode ser que todos os efeitos dos fenômenos citados sejam explicáveis por problemas no processamento sensorial e na aquisição e acesso de informações.
É claro que a hipótese do fantasma na máquina não pode ser avaliada cientificamente e nos limitamos a discutir a coerência desta proposta com o conhecimento disponível mas, é particularmente interessante notar que a Pequisa Psi poderia produzir dados interessantes para este debate, segue uma idéia especulativa minha :
Temos boas evidências para acreditar que nossos órgãos sensoriais foram desenvolvidos seguindo o princípio da evolução e adaptação e sabe-se que as freqüências de luz que fazem parte do nosso espectro visível coincidem com as freqüências de radiação de maior intensidade produzidas pelo sol nossa visão foi adaptada para perceber a faixa de radiação mais significativa do sol (há um custo entre largura da banda e amplificação do sinal que acredito ser aplicável aos seres vivos e justificar esta limitação). Outras estrelas possuem radiação mais intensa em outras faixas e é esperado que os seres que porventura existam em outros sistemas solares sejam melhor adaptados ao espectro emitido por suas estrelas.
E onde entra a Pesquisa Psi ?
Muitas pessoas alegam poder sair de seus corpos outras alegam terem "passado para o lado de lá" por alguns minutos nas chamadas experiências de quase-morte. É de se esperar que, caso realmente exista um fantasma dentro da máquina, este seja independente da máquina, possua um sistema de cognição e armazenamento de dados próprio .. ora, mudando a aparelhagem é esperado que o espectro visível também mude e de fato algumas pessoas relatam que os objetos mudam de cor nestas experiências.
Minha idéia consiste em pedir a uma pessoa que alegue ser capaz de sair do corpo e tenha boa capacidade de observação e pedir para que em sua "próxima viagem" observe o céu e tente reproduzir o que foi percebido. É esperado que a intensidade luminosa das estrelas observadas seja diferente das observações usuais, que algumas estrelas não observáveis apareçam e outras desapareçam e é possível através de alguns cálculos verificar a consistência destas observações.
É claro que nem mesmo a veracidade das alegações de OBE foi confirmada experimentalmente e que o teste só seria válido caso experiências OBE fossem comprovadas (independente das explicação cabível) mas, trata-se apenas de uma especulação sobre a possibilidade de existirem diferenças cognitivas entre o fantasma na máquina e o fantasma fora da máquina. Acredito que testes similares mais plausíveis possam ser feitas explorando esta mesma linha de raciocínio.