Um olhar crítico sobre a baixada santísta e o mundo

12.10.05

Greve de coerência


O bispo Luiz Flávio Cappio, que fez greve de fome por onze dias em protesto contra a transposição das águas do Rio São Francisco, é um poço de contradições. Ele afirma que toda a sua formação ocorreu dentro dos parâmetros da Teologia da Libertação, mas é um católico conservador, um admirador do papado de João Paulo II. O bispo é, também, contra o aborto e a eutanásia, tal como ensina a doutrina da Igreja Católica. Confira o que disse o bispo em entrevista sobre o assunto à repórter Julia Duailibi, no sertão de Cabrobó:

Veja – O que o senhor pensa do aborto e da eutanásia, condenados pelo Vaticano?
Cappio –Sou contra o aborto e a eutanásia. Sou totalmente contra isso. Sou um seguidor dos princípios da Igreja.

O bispo está coberto de razão. Afinal, o dogma católico ensina que Deus dá a vida e apenas Deus pode tirá-la. Por isso, os católicos são –em geral, mas isso está longe de ser uma unanimidade –contra o aborto e a eutanásia. O problema é que a greve de fome a que o bispo se submeteu, anunciando que a sustentaria "até a morte", se fosse preciso, atentava contra sua própria vida. Atentava, portanto, contra aquilo que é uma dádiva divina. Ou não?

Veja – Conforme os princípios da Igreja Católica, sua greve de fome não seria indefensável já que, no limite, pode levá-lo à morte?
Cappio – Isso é uma visão distorcida. São vidas que se oferecem em nome de uma causa. Eu não quero morrer. Quero viver. Estou defendendo uma causa. Essa é uma visão distorcida, uma visão que não cabe no momento.

É óbvio que há uma contradição brutal na cabeça do bispo, e não seria correto atribuí-la à escassez de comida. No fundo, talvez haja mais que contradição. Talvez haja oportunismo. Ou, quem sabe, uma dose generosa de hipocrisia. Seria bastante interessante se o bispo fizesse sua greve de fome e, por coerência, também defendesse o aborto e a eutanásia. Estaria, aí sim, abrindo um debate de profunda envergadura dentro da Igreja. Mas não. Para o bispo, as coisas são bem mais simplórias: a vida é um dom divino quando se trata de censurar os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, proibindo-se o aborto, mas deixa de sê-lo no momento em que o bispo quer defender uma boa causa... A vida é coisa de Deus quando se quer impedir o sofrimento lancinante dos pacientes terminais, interditando-se a eutanásia, mas deixa de sê-lo quando o bispo acha que deve deixar de sê-lo...

Por tudo isso, a greve de fome de dom Cappio parece adequar-se melhor ao picadeiro da palhaçada do que à arena do protesto íntegro. Por tudo isso, sua greve de fome foi encerrada com a mesma ligeireza com que se iniciou. Começou sem que o bispo tivesse tentado qualquer contato com o governo para apresentar seu pleito de adiar as obras do São Francisco e, agora, terminou sem que tivesse qualquer garantia de que o governo vai mesmo adiá-las.
E o fato de o governo ter-se envolvido até os cabelos na greve de fome do bispo apenas reforça o aspecto circense do episódio.