Um olhar crítico sobre a baixada santísta e o mundo

12.2.06

Agora somos todos dinamarqueses

JEFF JACOBY
COLUNISTA DO "BOSTON GLOBE"

Comer carne bovina é sacrilégio para os hindus. Então quando, no outono passado, um supermercado dinamarquês fez uma promoção de carne bovina e vitela, hindus em todo o mundo reagiram enfurecidos. A Índia retirou seu embaixador de Copenhague, e bandeiras da Dinamarca foram queimadas em Calcutá, Mumbai (ex-Bombaim) e Nova Déli. No Sri Lanka, uma multidão de hindus espancou impiedosamente dois funcionários de uma empresa dinamarquesa, e manifestantes no Nepal gritaram: "Guerra à Dinamarca!". Outros em grandes cidades depredaram lojas que vendem artigos de louça dinamarquesa ou brinquedos Lego. Duas embaixadas da Dinamarca foram atacadas com coquetéis molotov.

Nada disso aconteceu, é claro. Os hindus podem achar odioso ter carne de vaca como alimento, mas eles não recorrem a boicotes, ameaças ou violência quando não-hindus comem bifes ou hambúrgueres. Eles não exigem que todos obedeçam às restrições impostas pelo hinduísmo.
O mesmo se aplica aos cristãos, judeus, budistas ou mórmons: eles não reagem com violência quando seus sentimentos religiosos são ofendidos. Não esperam que suas crenças sejam imunes a críticas, oposição ou zombaria.

Mas os muçulmanos radicais não pensam desse jeito.
A comoção atual em torno das charges do profeta Muhammad, publicadas por um jornal dinamarquês, mais uma vez ressalta a intolerância fascista que está no cerne do islã radical.
O "Jyllands-Posten", maior jornal diário da Dinamarca, encomendou as charges para passar uma mensagem relativa à liberdade de expressão. O jornal quis protestar contra o clima de intimidação pelo qual um escritor dinamarquês não conseguiu encontrar um único ilustrador para o livro infantil que escrevera sobre o profeta Muhammad.
Nenhum artista concordara em ilustrar o livro, porque todos tinham medo de se tornar alvos de extremistas muçulmanos. Estarrecido com essa autocensura, o "Jyllands-Posten" convidou artistas dinamarqueses para fazer desenhos de Muhammad, e publicou os 12 desenhos que recebeu.

A maioria dos desenhos é branda a ponto de ser maçante, especialmente quando comparada às charges mordazes que corriqueiramente aparecem em jornais americanos e europeus.
Algumas dessas charges vinculam Muhammad ao terrorismo islâmico -uma delas o retrata com uma bomba no turbante, e uma segunda o mostra no paraíso, dizendo aos terroristas recém-chegados: "Parem! Parem! O estoque de virgens acabou!".
Outras das charges focalizam a ameaça à liberdade de expressão. Em uma delas, um artista está sentado diante de sua prancheta, nervoso e suado, desenhando Muhammad, e ao mesmo tempo olha sobre o ombro para se assegurar de não estar sendo vigiado.
A idéia de que algo tão brando assim pudesse desencadear uma reação tão desvairada -tumultos, ameaças de morte, seqüestros, queima de bandeiras- revela muitíssimo sobre o abismo que separa os valores do mundo civilizado dos que vigoram em grande parte do mundo islâmico.
Liberdade de imprensa, o mercado de idéias, o direito de espicaçar vacas sagradas: o islã militante não conhece nada disso. E, se os jihadistas conseguirem seu intento, tudo isso será eliminado em toda parte pela censura e a intolerância da sharia.
Algumas vozes muçulmanas corajosas e dispersas têm se manifestado contra os queimadores de livros. O jornal jordaniano "Shihan" publicou três das charges. "Muçulmanos do mundo, sejam razoáveis", suplicou o editor Jihad al Momani, em editorial publicado no jornal. "O que causa mais prejuízos ao islã? Essas caricaturas, ou fotos de um seqüestrador degolando sua vítima diante da câmera?"
Em questão de horas, porém, Momani estava desempregado -demitido depois que o governo jordaniano ameaçou tomar medidas legais.
Momani não é o único editor a ter sido demitido nos últimos dias. Em Paris, Jacques Lefranc, do diário "France Soir", também perdeu seu emprego depois de publicar as charges de Muhammad. O proprietário do jornal, um copta egípcio chamado Raymond Lakah, divulgou um comunicado orwelliano, em tom abjeto, oferecendo a cabeça do editor como gesto de "respeito pelas crenças e convicções íntimas de cada indivíduo".
Mas a equipe do "France Soir" defendeu a decisão dele de publicar as charges, num editorial corajoso. "A melhor maneira de lutar contra a censura é impedir que a censura aconteça", disseram os jornalistas. "Um princípio fundamental que garante a democracia e a sociedade secular se encontra ameaçado. Não dizer nada equivale a bater em retirada."
Em todo o continente, quase duas dúzias de outros jornais já se uniram na defesa desse princípio. Enquanto clérigos islâmicos proclamam um "dia internacional da ira" ou declaram que "a guerra começou", importantes publicações de Noruega, França, Itália, Espanha, Holanda, Alemanha, Suíça, Hungria e República Tcheca reproduziram as charges dinamarquesas.
No entanto não houve demonstração comparável de coragem nos EUA.
Não devemos nos deixar enganar: esse assunto não vai desaparecer, como tampouco vai desaparecer a ameaça islamo-fascista. A liberdade de expressão que temos como algo garantido e certo está sofrendo forte ameaça e, se não for bravamente defendida, pode desaparecer.
Hoje os censores podem estar combatendo algumas charges pouco engraçadas de Muhammad, mas amanhã serão nossas palavras e idéias que eles tentarão por todos os meios silenciar. Gostemos disso ou não, agora somos todos dinamarqueses.