Um olhar crítico sobre a baixada santísta e o mundo

21.3.06

Para onde estamos indo?


Lya Luft, colunista da revista Veja
No Dia Internacional da Mulher, eu participava, no Rio de Janeiro, de uma mesa-redonda sobre a situação da mulher e sobre o belo filme Mulheres do Brasil. Celebrávamos conquistas de nossa sociedade na questão feminina – isto é, na questão humana – e comentávamos o muito que ainda há por fazer. Nisso me chegaram duas notícias: uma, não surpreendente, mas triste, outra assustadora. Melancólica, embora previsível na nossa realidade atual, foi a absolvição de mais dois políticos brasileiros operadores declarados do famigerado caixa dois, considerado normal por tantas autoridades – inclusive, expressamente, pelo presidente da República em entrevista em Paris, tempos atrás.

Mas foi assustadora a notícia, vinda do meu estado, o Rio Grande do Sul, de que uma horda de mulheres ditas campesinas sem-terra, de lenço e máscara na cara, invadiu mais um importante centro de pesquisa que trabalhava pelo crescimento deste pobre país. Nesses mesmos dias, foi invadida no Rio Grande mais uma propriedade privada e produtiva. Como de costume, quando os pseudocolonos a desocuparam, restou uma terra devastada: sujeira por toda parte, frases ameaçadoras nas paredes, trincheiras cheias de pontiagudas estacas de bambu disfarçadas por ramos e folhas para receber quem viesse tentar refazer a ordem e a decência. Foram abandonados por ali montanhas de sacos de feijão, arroz, farinha e um número incalculável de garrafas vazias de aguardente. Se eu e minhas amigas invadíssemos a casa de nosso vizinho, ali nos instalando por dias ou semanas, sujando, estragando e aviltando, ou se entrássemos num shopping quebrando vitrinas e objetos, seríamos imediatamente presas, e quem nos tivesse orientado estaria na cadeia.

As chamadas camponesas arrasaram o que puderam encontrar naquele local de estudo e trabalho. Empurraram o Brasil com sua barriga um bocado mais para trás. Nem a desinformação nem a ignorância – mas talvez a lavagem cerebral – explicam essa violência. Se fossem mais informadas, entenderiam que seu gesto significou mais atraso, mais sofrimento na cidade e no campo, menos emprego, menos dinheiro, menos saúde e educação, menos horizontes.

Depois, foram filmadas e gravadas admitindo tudo, risonhas, sem a menor consciência de que não apenas cometeram um crime, e prejudicaram definitivamente o governo federal e o PT, partido a que seu movimento sempre esteve intimamente ligado, como aviltaram a figura do verdadeiro colono. Esse que, em lugar de optar pela ilegalidade, vive de seu trabalho honrado. Mesmo assim, foram publicamente elogiadas por seu líder – também ainda solto enquanto escrevo –, que as considerou corajosas promotoras de um ato que deve servir de aviso à nação. Que eu saiba, não há ninguém preso. Uma das malfeitoras proclamou alto e bom som: "No começo deu um medinho, mas, quando a gente começou a destruir tudo, foi muito lindo!" Os nazistas também acharam lindo queimar em fogueiras livros de Thomas Mann, Hermann Hesse e centenas de outros grandes escritores e intelectuais, nos tempos de Hitler. Acharam lindo estourar cabecinhas de bebês nos muros, espirrando miolos em cima das mães. Foi lindo ver e ouvir a agonia de milhares de pessoas inocentes nas câmaras de gás e depois aspirar o cheiro dos corpos queimados nos fornos crematórios. Os traficantes devem achar lindo matar lentamente os viciados, e diretamente os policiais ou cidadãos pacíficos, incluindo crianças.

Cuidado: se as autoridades deixarem impunes esses crimes recorrentes nas cidades e no campo – como tanta coisa grave por aqui é absolvida ou considerada normal –, em breve nossas casas, nossas escolas, hospitais, creches e fábricas serão invadidos e arrasados. Pessoas honradas serão arrancadas de suas propriedades urbanas ou rurais, trabalhadores honestos serão maltratados, famílias serão humilhadas, lares e locais de trabalho serão destruídos entre gritos de ódio, enquanto nós permaneceremos alheios ou inertes.

Cuidado: ou logo, além de mais miseráveis do que já somos, o país que menos cresceu no último ano (perdendo apenas para o Haiti), seremos um país sem lei, cambaleando em direção à desobediência civil generalizada. O governo do Rio Grande do Sul esboçou uma primeira reação, fazendo ver que ainda existe alguma autoridade para nos proteger. O Ministério Público, sempre a última esperança do cidadão, começa a tomar providências. Precisamos de ações assim em todo o país, urgentes e rigorosíssimas, para punir e evitar que também esse crime seja consagrado. Ou esses falsos colonos e seus mandantes, nacionais ou estrangeiros, inspiram medo demais?