Um olhar crítico sobre a baixada santísta e o mundo

24.4.06

A Armadilha Criacionista

Por Acauan












Aceitar que exista uma polêmica “Criacionismo X Evolucionismo” é de imediato muito favorável ao primeiro e prejudicial ao segundo, pois nivela ambas as teses dentro do status de teorias científicas antagônicas e coloca os defensores tanto de uma quanto de outra na confortável posição para os “criacionistas” de participantes de um debate científico.

Da mesma forma, ao aceitar a classificação de “Evolucionista” o cientista desavisado se deixa marcar por um sufixo que define partidarismo e parcialidade, perdendo assim a aura de isenção que caracteriza o exercício da investigação científica.

Não existe um debate científico entre “Criacionismo e Evolucionismo” e sim um debate de idéias entre os defensores de uma doutrina religiosa e os de uma teoria científica.
O que os fundamentalistas cristãos chamam de “Criacionismo” não pode ser aceito como Teoria Científica simplesmente porque coloca o carro a frente dos bois no que concerne à esta definição:

Uma teoria científica parte de uma hipótese, identifica evidências que a sustentem e só então declara uma conclusão. Para que esta conclusão seja aceita pela comunidade científica, ela deve ser passível de comprovação experimental reprodutível.

Uma Doutrina Religiosa como o Criacionismo segue o caminho inverso: A conclusão já está a priori definida e é incontestável antes de qualquer evidência ter sido levantada, cabendo à evidência apenas o papel de sustentar a argumentação futura e não a de comprovar a confiabilidade da tese presente.

Além disto boa parte da argumentação “Criacionista” é de contestação e não de estabelecimento de conceitos, uma vez que os argumentos sempre se infiltram nas lacunas das Teorias de Darwin.

Esta infiltração seria menos eficaz se os cientistas tivessem uma posição mais honesta com relação às lacunas citadas. Elas em nada comprometem a Teoria da Evolução em si, apenas atestam que ela precisa ser mais trabalhada, mesmo porque as comprovações experimentais da Seleção Natural exigem a reconstituição de fenômenos que ocorreram ao longo de milhões de anos, não sendo passíveis de reprodução em laboratório pelos nossos recursos atuais.

Um exemplo comparativo interessante é o desenvolvimento da Teoria Heliocêntrica:

Em 1510 Copérnico declara que a Terra gira em torno do Sol, rompendo com a doutrina da Igreja Católica Romana que defendia o Geocentrismo Aristotélico.
Copérnico acreditava que a Terra e os demais planetas descreviam órbitas circulares em torno do Sol, o que criava um problema pois a observação dos planetas não coincidia com as previsões fundamentadas em sua teoria.

Entre 1609 e 1619 Johanes Kepler defendeu a tese de que os planetas, inclusive a Terra, descreviam órbitas elípticas e não circulares em torno do Sol. Com este ajuste o comportamento observado daqueles corpos celestes passou a coincidir com as previsões teóricas, mas não se estabeleceu então uma justificativa matemática para tal comportamento.

Somente em 1689, com a publicação de “Princípios Matemáticos de Filosofia Natural” é que Sir Isaac Newton demonstrou matematicamente como a gravitação do Sol atraía os planetas e produzia as órbitas elípticas descritas por Kepler.

Assim, temos um hiato de quase cento e oitenta anos entre a primeira versão da Teoria Heliocêntrica e sua consagração com os postulados de Newton.

A “Origem das Espécies” de Charles Darwin foi publicado em 1859 e tem portanto menos de cento e cinquenta anos. Talvez explicar a vida seja mais demorado do que explicar os astros, mas o equivalente criacionista às lacunas da Teoria de Copérnico resultaria no restabelecimento da crença de que era o Sol que girava em torno da Terra, e isto convenhamos, é um assunto encerrado.

No momento devido, a Ciência preencherá as lacunas de Darwin e muitas outras, e encerrará todas as polêmicas associadas a elas. Mas até lá deve estar atenta às armadilhas que encontrará pelo caminho.