Um olhar crítico sobre a baixada santísta e o mundo

2.5.06

Duvido e creio




Vicente Cascione, advogado é professor decano de Direito Penal na UniSantos e deputado federal

Um escrito de 1700 anos transforma o mais notável traidor dos últimos milênios, o amaldiçoado Judas Iscariotis, no apóstolo favorito de Jesus, no único responsável pelo cumprimento da missão de Cristo.

Segundo o texto do mais novo evangelho, descoberto em 1970 no Egito, Judas teve uma conversa com Jesus, três dias antes da páscoa judáica, e dele recebeu ordens para traí-lo.

Quem sou eu para ter a certeza desta versão guardada numagruta do inesgotável Egito, de tantas versões e verdades descobertas ao longo da história, eu que apenas tenho certeza de minhas dúvidas?

Gostaria que o velho judas fosse um homem honesto e bom, incapaz de vilezas e traições, e de corromper-se pelos 30 dinheiros que não lhe serviram, diante do remorso e do suicídio.

Em verdade, nunca entendi, em minhas modestas meditações, como conciliar a vontade invencível e inexorável do Criador com o livre arbítrio ou as livres intenções dos pobres mortais.

Se o Pai descide enviar seu Filho à Terra para cumprir missão predeterminada, e decreta que a vida do filho será entregue em sacrifício, todos os caminhos entre o nascimento e a morte de Jesus estarão previamente traçados, e não obedecerão ao acaso nem à decissão dos homens, mas à vontade do Pai.

Logo, salvo melhor juízo, os protagonistas de um plano divino são apenas meros agentes predeterminados a cumprir ordens superiores. Não fosse assim, estaríamos diante do absurdo herético de que Deus faz, e os homens desfazem.

Pois bem. Ou Judas traiu Cristo porque estava escalado pelo Criador, e não tinha escapatória (e não lhe cabe a imputação da traição) ou cumpriu a ordem do próprio Cristo para entregá-lo aos algozes, e agiu em favor da missão redentora de seu Mestre.

Nos dois casos, nas duas hipóteses, não me parece justo que o velho Judas fosse lançado, no curso de 1700 anos, à execração da humanidade cristã.

Não foi ele ungido à santidade, como foram os outros apóstolos a quem se destinou tarefa menor, afinal, não estivesse Judas predestinado a trair, ou a cumprir ordens, e Cristo não iria ao Calvário nem seria posto na cruz.

Pudesse Judas recusar o seu papel – e o fizesse -, a vontade do Pai seria em vão. Diga-se o mesmo de Pôncio Pilatos, e dos juízes imersos na multidão, salvadores de Barrabás.

Se a missão ordenada por um Deus onipotente estava escrita, ninguém teria o poder de reescrever a história de Cristo, com epílogo diverso.

Mas minhas pobres meditações não se esgotam nessas idéias. Com base nesse evangelho trazido à luz depois de 1700 anos, soa-me absurda a versão de uma traição ordenada pelo próprio Cristo.

Ora, por que necessitaria Jesus da delação de Judas e do beijo de uma traição dissimulada, para ser capturado? Não bastaria que ele mesmo se identificasse, frontalmente, a se entregasse ao sacrifício por que era chegada a hora?

Para que inserir, no plano divino, o ingrediente da vileza e da traição do apóstolo, so o Cristo jamais se escondeu e se a palavra era sua própria evidência, seu alarde, sua presença, sua coragem, o rastro nítido de seus passos, de seu caminho, de sua verdade e de sua vida?

Positivamente, nada entendo senão de minhas dúvidas.

Bem-aventurado os que crêem em tudo e não empacam diante das contradições e incoerências das maquinações divinas e das maquinações humanas.

Espero que se abram versões ou verdades em outras grutas e tantos escritos para que minhas dúvidas convertam-se em certezas, que persigo e procuro, com os olhos da lógica e da razão.

Creio, apesar de tudo, no essencial e nas essências, apesar do estorvo do acidental e das aparências.