Um olhar crítico sobre a baixada santísta e o mundo

19.6.06

Eleição e religião

Publicado em 17 de junho de 2006 "O Globo"









Para se ganhar eleição no Brasil, o candidato depende de máquina eleitoral no grotão; dos evangélicos, na periferia em grande parte, e da Igreja Católica onde eventualmente existam movimentos sociais; e de um discurso competitivo nos grandes centros. A definição é do cientista político Cesar Romero Jacob, da PUC do Rio, que lançou recentemente um estudo sobre a religião na sociedade brasileira, no qual analisa as opções religiosas em 19 capitais brasileiras.

Ainda não existem cruzamentos que permitam tirar conclusões sobre a influência da religião no voto do brasileiro, mas com base em estudos anteriores sobre eleições presidenciais e para governador nos principais estados, Romero Jacob pode fazer algumas ilações sobre a influência do voto evangélico na próxima eleição presidencial.

A saída de cena, pelo menos como protagonista, do ex-governador Garotinho não põe em nível nacional uma disputa entre os evangélicos, apesar da confirmação de que o vice de Lula continuará sendo José Alencar, agora filiado ao Partido Republicano fundado recentemente pelo bispo Edir Macedo, da Igreja Universal.

Mas a candidatura do bispo Crivella para governador do Rio de Janeiro, pelo mesmo PRB, dará a Lula um palanque evangélico, enquanto Garotinho, através do pequeno PSC, lançará um candidato laranja para tentar ocupar um pequeno espaço nos programas oficiais de televisão e rádio, a partir de 15 de agosto, para jogar toda sua influência, inclusive entre os evangélicos, contra Lula.

Os números que estão no estudo “Religião e sociedade em capitais brasileiras”, de Romero Jacob com os pesquisadores Dora Rodrigues Hees, Philippe Waniez e Violette Brustlein, mostram a existência do que chamam de “anéis pentecostais” nas periferias pobres de todas as regiões metropolitanas, fenômeno presente quer em Teresina, que é a cidade mais católica das 19 capitais pesquisadas, quanto em Goiânia, que é a menos católica.

Os evangélicos chegam a ser 30% nas três regiões metropolitanas mais importantes: Rio, São Paulo e Minas. Romero Jacob ressalta que Garotinho se deslocou do palanque para o púlpito, e Crivella fez o caminho inverso. Segundo ele, começa a haver sinais de disputas internas no mundo evangélico. Cerca de 50% dos evangélicos no Brasil são da Assembléia de Deus e, no Rio, ela é mais forte na periferia da periferia, como a periferia de Nova Iguaçu, por exemplo.

Nessa periferia mais pobre a Assembléia de Deus atua entre os muito pobres, mas, segundo ele, a Igreja Universal não está interessada nesse nicho porque, sendo partidários da teologia da prosperidade, estão interessados em pegar a baixa classe media, ávida do consumo e da ascensão social, que não está na periferia pobre. Na periferia pobre de Magé, Duque de Caxias, Nova Iguaçu está o Bolsa Família, e o candidato Lula se beneficiará nos dois planos.

Pode haver uma tendência à divisão do eleitorado evangélico, assim como entre os católicos. Os mais conservadores tenderão a votar no candidato Geraldo Alckmin, do PSDB. O candidato tucano tem pedido para visitar o bispo em toda cidade que vai, o que pode marcá-lo como o candidato católico. Os setores da esquerda da Igreja tenderiam em princípio para Lula, mas pode ser que o descontentamento desses setores faça os votos migrarem para Heloísa Helena.

O fato é que, analisa Romero Jacob, o mundo católico vai marchar dividido, ao contrário do que aconteceu nas eleições para prefeito do Rio em 2004. Sem afirmar que todo voto de Crivella era de pentecostais, e que todo pentecostal votou em Crivella, Cesar Jacob ressalta que há uma enorme semelhança, o que pode acontecer novamente agora, tanto na eleição presidencial quanto na de governador.

Cesar Maia soube explorar muito bem essa disputa religiosa na eleição para prefeito em 2002, segundo a análise de Romero Jacob. Ele começou e terminou a campanha subindo a escadaria da Igreja da Penha, sinalizando que havia uma disputa religiosa, e que ele era o candidato dos católicos.

Embora esta mesma situação não esteja posta em termos nacionais, até porque não há mais um candidato evangélico disputando a Presidência, se José Alencar for o candidato a vice é muito provável que a Igreja Universal se empenhe muito para fazer uma boa bancada para o PRB.

Resta saber como a Igreja Católica reagirá a isso, o que pode vir a ser um fator negativo para Lula. Essa associação do José Alencar, que é católico, com a Igreja Universal também é muito complicada, ressalta Romero Jacob.

Pode-se ter uma idéia bastante clara do que será a disputa pelo governo do Rio, que terá o bispo Crivella como protagonista contra a máquina do ex-governador Garotinho, que apóia o candidato do PMDB, Sérgio Cabral, e lutará ao mesmo tempo contra Crivella e contra Lula no plano federal.

Constata-se, por exemplo, que a Igreja Católica, entre 1991 e 2000, perdeu, em nível nacional, quase tanta penetração quanto aumentou a dos pentecostais. Entre 19 capitais pesquisadas, o Rio de Janeiro, com 61% da população, só tem mais católicos que Goiânia, a capital com menor índice de católicos e maior de pentecostais. Na Região Metropolitana do Rio, o número de católicos cai para 48%, como também nas áreas mais pobres, como Santa Cruz e Campo Grande.

O crescimento dos pentecostais na periferia do Rio pode ser constatado ao comparar-se os censos de 1991 e 2000, e é quase na mesma proporção da redução do número de católicos. Segundo Romero Jacob, há uma série de indicações que mostram que as igrejas evangélicas trabalham de uma maneira coesa quando o candidato é um irmão. O ex-bispo Rodrigues falava com orgulho que o eleitorado era muito disciplinado:se os pastores mandassem votar num poste, eles votariam.

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Comentário do Bruxo: Nossa, religião não era aquela "coisa" que tratava de assuntos espirituais!?