Um olhar crítico sobre a baixada santísta e o mundo

6.6.06

Onde estava Deus?

Por Mario Sabino
Revista Veja







As palavras que se seguem datam do século IX antes de Cristo e estão no primeiro canto da Odisséia: “ Ah, como os mortais censuram os deuses! A dar-lhes ouvidos, de nós originam-se todos os males. Mas, por sua insensatez e contra a vontade do destino, eles é que são os autores de suas próprias desgraças”. Homero, a quem se atribui o poema seminal da literatura do Ocidente, colocou-as na boca de Zeus, a maior das divindades da mitologia gregra. Quase 3000 anos depois de escritas, elas poderiam funcionar como resposta ao espanto e à consternação demonstrados por Bento XVI em sua visita ao antigo campo de concentração de Auscwitz, na Polônia. Nas instalações do que era a mais temida sucursal do inferno nazista, onde morreram 1,5 milhões de pessoas, judeos em sua maior parte, perguntou o papa: “Por que, Deus, o senhor permaneceu em silêncio? Como pôde tolerar tudo isso? Onde estava Deus naqueles dias? Como pôde ele permitir esse massacre sem fim, esse triunfo do mal?”

Ao responsabilizar exclusivamente os homenspelos males infligidos a eles próprios, o pagão Homero faz uma constatação que, hoje, soa óbvia aos ateus. Mas para a maioria esmagadora dos 6 bilhões de seres humanos, não importa o credo que professem, Deus não só existe, como é todo-poderoso, sinônimo de bondade e tecelão de cada trama da vida. Dessa maneira, parece inexplicável que tantos males terríveis atormentem a humanidade – sejam eles naturais, como os terremotos que matam milhares de pessoas, o último deles ocorrido na Indonésia, na semana passada, ou morais, como os genocídeos perpetrados contra etnias ( atualmente há um em curso na província sudanesa de Darfur, que já matou 70 000 pessoas ).

O paradôxo entre a onipotência de um Deus bondoso e a existência de males que ultrapassam nas suas manifestações a expiação dos pecados intriga os pensadores cristãos desde Santo Agostinho. Passados 17 séculos de malabarismos filosófico-teológicos, duas formulações pemanecem entre as mais interessantes. A primeira é do alemão Leibniz ( 1646-1716 ) e diz respeito aos males naturais. Ele chegou à conclusão de que vivemos no melhor dos mundos, porque Deus o criou depois de avaliar as infinitas combinações possíveis e verificar que a forma final escolhida é aquela em que soma de todos os males da natureza, por mais calamitosos que resultem aos homens, ainda é inferior à de qualquer outra possibilidade. Leibniz, é verdade, propiciou que o iluminista francês Voltaire imaginasse o personagem Doutor Pangloss, um idiota do otimismo que figura o conto filosófico Cândido – mas nem por isso as idéias do alemão deixam de ser curiosas, ao abstrair das catástrofes o propósito de castigo divino.

A segunda formulação, dominante na Igreja Católica, é sobre os males morais em si ( os pecados, enfim ). Eles não seriam parte da criação, e sim uma corrupção dela, possível de ser levada a cabo por meio daquela faculdade que Deus só concedeu aos homens: o arbítrio. Enquanto tal, os males morais não existiriam em absoluto – apenas em relação ao que foi originado por Deus. Ou seja, se há o Mal é porque necessariamente há o Bem. É esse o ponto que embasa uma frase célebre de Santo Tomás de Aquino: “Se o Mal existe, Deus existe”. Raciocínio brilhante, sem dúvida, porém incapaz de dar conta de uma monstruosidade como Auschwitz, em que homens, mulheres e crianças foram destituídos de sua humanidade e dizimados com métodos industriais. Se esse Mal existiu, é porque Deus não existia. Resta a questão: ao perguntar-se onde estava Deus naquele momento, teria o Papa Bento XVI vacilado em sua fé?