Um olhar crítico sobre a baixada santísta e o mundo

25.7.06

Com Bush, contra a fé







Christopher Hitchens



Conhecido por seus artigos políticos em publicações como Vanity Fair e pela coluna que mantém na revista da internet Slate, o polemista Christopher Hitchens, de 57 anos, foi certa vez abordado por senhoras idosas que lhe perguntavam: "O senhor não gosta de ninguém?". O jornalista inglês costuma responder que já escreveu livros sobre figuras de sua admiração, como Thomas Jefferson. Sua coletânea de ensaios mais recente, Amor, Pobreza e Guerra – que chega às livrarias brasileiras nesta sexta-feira, pela Ediouro –, inclui uma seção devotada ao seus escritores favoritos, como Marcel Proust e Jorge Luis Borges. Mas não adianta: Hitchens não tem como se desfazer da fama de franco-atirador. Com ironia e rigor argumentativo, ele já desmontou personalidades públicas de todos os lados do espectro político. Hitchens, que foi contrário à Guerra do Vietnã nos anos 1960, hoje apóia a invasão do Iraque. "Perdi alguns amigos por isso, mas os novos amigos que ganhei são bem melhores", diz o autor, que em agosto estará no Brasil para participar da Festa Literária Internacional de Parati. Na entrevista a seguir, as opiniões desse escritor que se define orgulhosamente como um radical.

Veja – Qual o significado da nova ofensiva israelense contra o Líbano?
Hitchens – Quando se discutia a criação de um Estado judeu no Oriente Médio, uma das vozes contrárias vinha de dentro do próprio judaísmo. Esses radicais consideravam que um Estado desse tipo na Palestina implicaria uma injustiça com as populações árabes. Em linhas gerais, é o meu ponto de vista: Israel foi, do começo, um erro. Não acredito que Jerusalém possa redimir o sofrimento histórico dos judeus. Para mim, Israel não é o fim da diáspora – é parte dela. Não tenho nada em comum, no entanto, com aqueles que consideram os judeus uma praga, uma raça de conspiradores que planeja governar o mundo. Se for forçado a escolher entre Israel e os terroristas libaneses do Hezbollah, é claro que fico do lado de Israel. O Hezbollah é um inimigo da civilização. Não posso ficar neutro. Mas tomo partido com relutância, e com um sentimento trágico de que essa situação poderia ter sido evitada.

Veja – O senhor concordaria com a posição da União Européia de que Israel está usando "força excessiva" contra o Líbano?
Hitchens – Eles dizem o mesmo sempre que Israel usa qualquer tipo de força. Perderam a autoridade para dizer isso. Israel utilizou, sim, força excessiva. Mas não fico impressionado ao ouvir o presidente da Rússia, Vladimir Putin, com suas credenciais autoritárias, fazer essa acusação. Existe a minha crítica a Israel – e a crítica deles. Não são a mesma coisa.

Veja – O senhor tem insistido que a comparação entre a Guerra do Vietnã e o atual conflito no Iraque não faz sentido. Por que o massacre de My Lai seria diferente do de Haditha?
Hitchens – Há várias razões. O Vietnã não estava sob sanções internacionais. Não invadiu outros países, não construiu armas de destruição em massa, não dava abrigo a terroristas, não promoveu genocídios. O Iraque de Saddam Hussein cometeu todos esses crimes. No Vietnã, os Estados Unidos deram continuidade a uma guerra colonial da França contra um movimento nacionalista que era liderado pelos comunistas. Para as forças americanas no Vietnã, ações como a que vimos agora em Haditha, e que resultou na morte de vários civis, eram rotineiras, pois a população em geral era vista como hostil. No Iraque, o único exército popular que existe está do nosso lado – são os revolucionários curdos. Os que estão contra nós não são um exército de libertação nacional, como eram os vietcongues, mas a ralé da Al Qaeda e os remanescentes fascistas do Partido Baath. Os vietnamitas ainda são meus camaradas, e não quero insultá-los. Recuso qualquer comparação entre eles e os assassinos de Saddam. Acho uma desgraça que pessoas de esquerda façam esse tipo de comparação.

Veja – Mas as armas de destruição em massa de que o senhor fala não foram encontradas.
Hitchens – E eu gostaria de saber para onde elas foram levadas. Aliás, isso não é bem verdade: algumas foram, sim, achadas. No mês passado, foram encontradas em um esconderijo 500 bombas de gás que ataca o sistema nervoso. Hoje também sabemos que, em fevereiro de 2003, representantes do governo de Saddam se encontraram, em Damasco, com representantes de Kim Jong-Il, da Coréia do Norte, para discutir a compra secreta de mísseis norte-coreanos.

Veja – Se era justificável derrubar uma ditadura como a de Saddam, os Estados Unidos não deveriam fazer o mesmo em Cuba, no Sudão, na Coréia do Norte?
Hitchens – Na maioria desses países, não houve rompimento de resoluções das Nações Unidas. No caso do genocídio de Darfur, no Sudão, consta que já é tarde demais para impedi-lo – parece que ele já foi completado. Infelizmente, nesse caso, decidiram seguir a estratégia de Kofi Annan (secretário-geral da ONU), com os resultados que se podiam prever. É o que acontece quando se aplica a diplomacia da ONU para tratar com países que não respeitam as leis internacionais.

Veja – A ONU é leniente com os países transgressores?
Hitchens – Depois do modo como a ONU se comportou em Ruanda, na Bósnia, em Darfur, é impossível sustentar que ela funciona como a corte internacional máxima para definir quando se pode recorrer à força. Estaríamos em um mundo muito pior se fosse assim. A ONU hoje admite que manteve um esquema criminoso no programa de troca de petróleo por alimentos no Iraque. Essa iniciativa enriqueceu os burocratas da ONU e o regime de Saddam, enquanto o povo iraquiano ficava à míngua. A mudança de regime no Iraque teve esse resultado lateral: obrigou a ONU a admitir sua própria corrupção e ineficiência. Até os opositores da Guerra do Iraque concordam com isso.

Veja – Alguns críticos da guerra argumentam que a presença americana no Iraque reforçou a ideologia da jihad, de uma cruzada opondo o Ocidente e o Islã.
Hitchens – Essa é uma maneira muito preguiçosa de pensar. Uma charge em um jornal de Copenhague bastou para inflamar a idéia de uma cruzada, de um confronto cultural entre Ocidente e Oriente. O romance de um amigo meu, publicado em Londres, em 1988 – Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie –, foi denunciado como obra da polícia secreta israelense, que teria escrito o livro por ele como uma arma contra a fé islâmica. Qualquer coisa que façamos pode produzir essas reações. No Iraque, porém, hoje podemos ver milhões de muçulmanos votando pela primeira vez, muitos deles em partidos religiosos. As peregrinações para locais sagrados dos xiitas no Iraque, banidas por mais de vinte anos, foram restabelecidas graças ao Exército americano. Os sunitas curdos, no Iraque, ou a Aliança do Norte, no Afeganistão, por acaso seriam menos muçulmanos do que a Al Qaeda? Aliás, estou seguro de que as forças da Al Qaeda vão ser derrotadas e desacreditadas no Iraque.

Veja – Sua avaliação do que se conseguiu até agora no Iraque não negligencia o lado vergonhoso da invasão – por exemplo, a tortura na prisão de Abu Ghraib e a prisão de Guantánamo, recentemente reprovada pela Suprema Corte dos Estados Unidos?
Hitchens – Tenho escrito sobre todos esses temas. Quando se decide começar uma guerra, por qualquer razão, é preciso ter em mente que episódios como Abu Ghraib ou Haditha podem acontecer. O que é preciso, nesses casos, é que as Forças Armadas processem os responsáveis. Foi o que aconteceu em Abu Ghraib, cujos casos de tortura não foram descobertos por um jornalista, mas revelados pelo próprio Departamento de Defesa. Creio que esse também é o caso em Haditha. Os responsáveis serão submetidos à lei, e essa é a grande diferença entre os Estados Unidos e seus inimigos.

Veja – O senhor já afirmou que não acredita mais no socialismo. Mas então o que restou para os contestadores defenderem?
Hitchens – É uma boa pergunta, e eu creio que muitas pessoas se aferram hoje a posições antigas porque não querem responder a ela. Não entendem como podem continuar na oposição se não há mais o socialismo para defender. E devo admitir que tampouco foi fácil para mim abandonar essa idéia. Mas isso não significa, de modo algum, que a vida dos radicais chegou ao fim. Ainda temos muitas tarefas importantes, e a maior de todas é derrotar a nova forma do totalitarismo: a teocracia. Aqueles que se intitulam como radicais, contestadores, precisam redefinir o debate em torno de uma sociedade secular, que é uma aspiração iluminista, e devem combater as ditaduras teocráticas. O fato de eu estar afastado da esquerda tradicional nunca significou uma abstenção da solidariedade política – nem mesmo da solidariedade revolucionária. Não estamos em um beco sem saída.

Veja – Então o seu ideal ou utopia hoje é uma sociedade plenamente secular?
Hitchens – Sim. Meu próximo livro, que já concluí mas ainda não foi editado, vai se chamar God Is Not Great (Deus Não É Grande). O título contraria abertamente um princípio conhecido da fé muçulmana, mas o livro não é apenas uma crítica ao Islã. É contra a crença em Deus. Acredito que hoje quem se declara radical deve defender e divulgar as descobertas científicas em áreas como a cosmologia e a genética, por duas razões. A primeira é o combate ao racismo. Já tínhamos uma abolição moral do racismo, e as descobertas da genética trouxeram a sua abolição científica. A segunda razão é que essas descobertas minam o poder da Igreja.

Veja – Há quem argumente que a humanidade não pode viver sem algum tipo de fé – que a educação moral das pessoas não se sustenta em uma base puramente secular.
Hitchens – A utilidade de uma ilusão é irrelevante para avaliar seu conteúdo moral. E há milhões de pessoas em todo o mundo que conduzem sua vida de forma ética sem acreditar em Deus. De outro lado, não creio que alguém possa indicar um só país em que as pessoas se comportem melhor por acreditar em Deus. Podemos, ao contrário, apontar países em que as pessoas se comportam de forma pior por causa da fé.

Veja – E o senhor incluiria os Estados Unidos entre os países onde a religião piora o comportamento das pessoas?
Hitchens – Sem dúvida. Posso dar exemplos. As pessoas que hoje desejam impedir as crianças de aprender sobre as novas descobertas da biologia evolutiva – o que tornará essas crianças incapazes de funcionar no mundo moderno – são cristãs. E em todas as igrejas encontramos quem afirme que a aids é ruim, mas não tão ruim quanto os métodos contraceptivos. Os programas americanos contra a aids na África são baseados nessas idéias – e vão levar milhões de pessoas a uma morte horrível.

Veja – No livro Cartas a um Jovem Contestador, o senhor mostra algum ressentimento por ser considerado apenas como o sujeito que atacou Madre Teresa de Calcutá. Por quê?
Hitchens – O que me irrita é quando me descrevem como um sujeito que está sempre em busca de alguém para atacar. Meus livros sobre George Orwell, Thomas Jefferson e Thomas Paine provam que sou, sim, capaz de escrever sobre figuras que admiro. Mas ainda tenho orgulho de ter exposto Madre Teresa como uma fraude e uma fundamentalista fanática. A Igreja, depois disso, decidiu aceitar como verdadeiro um milagre fajuto na Índia: uma mulher teria se recuperado de um tumor usando uma medalha de Madre Teresa. Não é assim que se curam tumores. Temos os testemunhos de médicos e até do marido dessa mulher para documentar o tratamento que a fez melhorar. A Igreja, no entanto, considera que houve uma cura milagrosa promovida por ela. É uma mentira irresponsável que encoraja os indianos a procurar charlatões no lugar de médicos de verdade.

Veja – Na introdução de Amor, Pobreza e Guerra, o senhor diz que os ensaios literários reunidos ali são os que lhe deram maior prazer. O senhor considera a possibilidade de se retirar da política para escrever apenas sobre literatura?
Hitchens – Em 2000, comecei a ler a obra de Marcel Proust, tomando notas. Meu plano era me voltar em definitivo para a literatura. Terminei essa leitura anotada de Em Busca do Tempo Perdido no dia 9 de setembro de 2001. Dois dias depois, percebi que teria de voltar a escrever sobre política. Confirmou-se algo que eu sempre disse: você pode tentar fugir da política, mas ela vai acabar encontrando você.

Veja – Mas, em certa medida, os escritores de que o senhor trata no livro se isolaram da arena pública para compor suas obras, não?
Hitchens – Em 1977, quando vi Jorge Luis Borges em Buenos Aires, essa era a posição dele. Dizia que não se importava com política, mas que estava feliz porque a Argentina era governada pelos militares, e não pelos políticos. Mas mesmo ele, já cego e idoso e levando uma vida um tanto reclusa, se viu forçado a fazer pronunciamentos públicos sobre temas como os desaparecidos políticos e a Guerra das Malvinas. Minha coleção de ensaios anterior, Unacknowledged Legislation (Legislação Não Reconhecida), é dedicada a esse tema: o papel dos escritores na esfera pública. Na Atenas antiga, surgiu uma palavra para designar aqueles que não desejavam participar da vida pública: "idiota". A palavra só se tornaria um insulto mais tarde. Mas sempre considerei que qualquer um que deseje ficar completamente de fora da vida política é, de fato, um idiota – às vezes, um idiota admirável.

Revista Veja, 26 de julho de 2006