Um olhar crítico sobre a baixada santísta e o mundo

25.7.06

Opção pelas trevas

Revista Veja, número 1966


Os Estados Unidos produzem 33% dos artigos científicos publicados anualmente, abrigam oito das dez universidades de maior prestígio internacional e são campeões em inovação científica e tecnológica. Ainda assim, seu presidente cedeu ao lobby dos cristãos fundamentalistas e colocou a área de pesquisa mais empolgante e promissora do mundo atual em um plano secundário. Na quarta-feira passada, George W. Bush vetou uma lei, aprovada dias antes pelo Congresso, que aumentava a verba federal para pesquisas com células-tronco embrionárias. Os estudos com esse material, a maior esperança para tratamentos de doenças imunodeficientes e degenerativas, como o mal de Alzheimer, terão de continuar com as verbas federais já existentes ou seguir com a ajuda financeira de estados, de fundações ou da iniciativa privada. "Essa lei daria respaldo à retirada da vida de inocentes na esperança de encontrar benefícios para outros", justificou Bush. "Isso ultrapassa a fronteira moral que a nossa sociedade deve respeitar." Com a medida, Bush, que tem se mantido fiel à promessa de campanha de se opor ao aborto e ao casamento entre homossexuais, agradou mais uma vez aos interesses do conservadorismo cristão, que o apóia. Para a ciência americana, é uma péssima notícia.

Um dos grandes desafios dos cientistas atualmente é descobrir formas seguras de reconstituir tecidos como músculos e nervos. As células-tronco, quando inseridas em determinados pontos do corpo humano, têm justamente a capacidade de assumir as mesmas funções das células vizinhas. Em caráter experimental, já são usadas células-tronco adultas retiradas do cordão umbilical ou da medula óssea no tratamento de leucemia. "A dificuldade de trabalhar com células adultas é que elas já se modificaram para assumir alguma outra função do corpo", diz Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo. Os cientistas têm procurado torná-las mais imaturas e controlar as divisões celulares, para que não formem tumores. É nesse ponto que a pesquisa com células-tronco embrionárias, que ainda não se especializaram, ganha relevância. Os embriões usados nesses estudos geralmente são sobras de clínicas de reprodução humana. Quando uma fertilização é bem-sucedida, os demais embriões que haviam sido produzidos são estocados e, mais tarde, doados para essas experiências. Na opinião de Bush e do lobby fundamentalista cristão, essas pesquisas estão levando à morte de indivíduos, mesmo que formados por poucas células. Ao acatar essa posição, o presidente colocou o país no caminho do atraso científico. "Muitos alunos meus estão procurando emprego em Cingapura, Japão, China e Índia, onde há mais facilidade para trabalhar com células-tronco", disse a VEJA o biólogo americano Lee Silver, da Universidade Princeton, em Washington.