Um olhar crítico sobre a baixada santísta e o mundo

27.2.06

Algumas notícias...

"O pastor evangélico Oséas de Campos foi condenado por abusar sexualmente de quatro crianças, entre elas os três filhos de Corrêa. Ela e o ex-marido e pai das vítimas, o aposentado Ubirajara Luiz Tavares, 49, disseram que pretendem recorrer à Justiça para garantir que o pastor volte para a prisão".

Católicos irlandeses entram em violento confronto com a polícia em Dublin
"Católicos da República Irlandesa (ex-Irlanda do Sul) entraram em confronto com a polícia em Dublin, num dos piores atos de violência já registrados na cidade na última década. O objetivo era protestar contra uma marcha planejada por membros da minoria protestante da Irlanda do Norte, formada por familiares de pessoas mortas pelo Exército Republicano Irlandês (IRA)".

Japão condena pastor a 20 anos de prisão por abuso sexual
"Pastor fundador de uma seita cristã japonesa foi condenado nesta terça-feira a 20 anos de prisão por ter violentado ou abusado sexualmente de sete adolescentes, além de ameaçar as jovens dizendo que iriam para o inferno se não cedessem a suas exigências."
"Vestir-se de Oxum, deusa do candomblé, ou de índio durante a celebração de uma missa é pinto para um padre que resolveu desafiar o conservadorismo da Igreja na terra de todos os santos. Polêmico ou midiático? Não importa a resposta, o padre José Pinto, 58 anos, está longe de se aposentar, como quer a Arquidiocese de Salvador, e continua polemizando. Ele acusa o cardeal primaz, dom Geraldo Majella, que o afastou das funções na paróquia da Lapinha, Salvador, “de ser pouco sensível aos excluídos”. E dispara: “Sou um revolucionário, com bases nos documentos da Igreja, em prol dos pobres, dos negros e dos índios”.

26.2.06

Tom e Jerry é pró-judeus, conclui iraniano

Para o especialista do Ministério da Educação do Irã, Hasan Bolkhari, o clássico desenho Tom & Jerry é uma conspiração para favorecer o Judeus.

O apelido pejorativo de "ratos" foi dado aos judeus pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial por considerar os judeus "animais sujos e que agem escondidos". E para Hasan o desenho Tom & Jerry apresenta um rato esperto que sempre se dá bem para "apagar" a imagem negativa do rato (os judeus, segundo Hasan) da mente da crianças!
Nas palavras de Hasan "Se acontecer de virem amanhã esse desenho, tenham isso em mente e vejam com essa perspectiva. O rato é muito esperto. Tudo o que ele faz é bonito. Ele bate no gato, mas sua crueldade não faz a gente detestar o rato. Ele é tão belo e esperto... É exatamente por isso que alguns dizem que ele visa apagar a imagem dos ratos da mente das crianças européias e mostrar que esse animal não é sujo e tem aquelas características. Infelizmente, temos muitos casos assim em Hollywood"
Com um presidente fundamentalista e perigoso como Mahmoud Ahmadinejad e um representante do Ministro da Educação como Hasan Bolkhari vejo tempos nebulosos para o Irã...

18.2.06

Penn & Teller

Estreia no Brasil um programa que há muito tempo venho aguardando: Penn & Teller (no exterior o programa é chamado "Bullshit!").

Trata-se de uma séria apresentada pelos mágicos e céticos Penn e Teller que com uma boa mistura de humor ácido e seriedade investigam mitos populares e pseudociências como abduções, criacionísmo, imagens de santas em torradas, tarô, feng shui etc...

Um programa de enorme sucesso no exterior e indicado ao prêmio Emmy em 2004.

Esse era um programa que eu gostaria que passase em horário nobre na tv aberta do Brasil, mas um dia quem sabe...

Progamação:






Toda segunda-feira às 22:00h
Canal FX

14.2.06

A favor da blasfêmia

André Petry
Revista Veja, 15 de fevereiro de 2006
Atenção, amantes da liberdade: autoridades religiosas estão tentando aproveitar a crise das charges dinamarquesas para suprimir o sagrado direito à blasfêmia. Os chefes islâmicos, com sua absoluta ignorância sobre o que é um Estado laico, exigem que o governo da Dinamarca se desculpe publicamente pela publicação das charges. Não compreendem que o governo não tem do que se desculpar porque não tem a mínima responsabilidade sobre o que publica ou deixa de publicar um jornal independente. Se o governo dinamarquês cair na cilada estará decretada a vitória do atraso: a tutela do Estado sobre a imprensa e, no rastro dessa miséria, a restrição da liberdade de crítica à religião.

Autoridades católicas também tentam arrancar um naco da liberdade de expressão. O L'Osservatore Romano, jornal do Vaticano, fez questão de solidarizar-se com os muçulmanos porque, entre outras razões, a própria Igreja Católica gostaria de restringir o direito à blasfêmia dentro de seus domínios. No mesmo texto em que defende os censores islâmicos, o jornal reclama de uma peça de teatro em cartaz em Madri, na Espanha, que satiriza o papa e "incita à apostasia".

É curioso que, na semana passada, a imprensa brasileira tenha começado a se encantar com a censura religiosa. Mesmo depois de tantas bandeiras queimadas, prédios depredados e vidas perdidas, continuaram a aparecer artigos, colunas e editoriais defendendo as trevas. Sustentava-se que as charges são grosseiras e sua publicação é uma irresponsabilidade, que os desenhos são uma incitação ao ódio religioso, que a Europa está ficando islamofóbica, que defesa da liberdade de expressão nesse caso não passa de um sofisma idiota e até que – supremo horror – o Ocidente perdeu o valor do sagrado. São idéias ingênuas. Ou espertas demais.

Não importa que as charges sejam grosseiras (e são). Não importa, para efeito desta discussão, que a Europa esteja dando sinais de islamofobia (e está). Não importa que a explicação do jornal dinamarquês para publicar as charges – medir até onde os chargistas ousariam ir na sátira ao profeta Maomé e ao islamismo – seja juvenil. Na democracia, temos o direito à blasfêmia. Temos o direito de criticar, negar, satirizar o profeta Maomé e Alá e Jesus Cristo e Shiva e Buda e Xangô e Jeová e Zeus – e toda a imensa fileira de deuses e deusas que a humanidade criou e criará.

A blasfêmia é o antídoto contra o triunfo do dogmatismo, é um convite à imaginação e ao trânsito de idéias do qual a humanidade não pode abrir mão sob pena de fossilizar-se. A liberdade de blasfemar é essencial porque deus, seja ele qual for, é uma idéia, e não um dado da realidade. E temos o direito de criticar, negar, satirizar toda e qualquer idéia, desde que ao fazê-lo não incitemos ao crime. Se não houver direito à blasfêmia, então devemos rasgar os versos de Dante Alighieri e Fernando Pessoa, queimar os filmes de Godard e de Theo van Gogh, incinerar os livros de Salman Rushdie, quebrar os pincéis de Giovanni de Modena e destruir os afrescos da Basílica de São Petrônio em Bolonha...

Temos o direito sagrado à blasfêmia, assim como, pelo mais elementar princípio da tolerância religiosa, temos o direito sagrado de acreditar em Deus e reverenciá-lo. Ou não.


13.2.06

Haaan.com: Um novo site cético








Foi lançado um novo site cético, o Haaan.com. Nele o internauta poderá ler ótimos textos de autores nacionais como Daniel Sottomaior, Renato Zamora Flores, José Colucci Jr e outros, que abordaram temas como pseudociências, ceticismo, laicismo e ateísmo.

Na sessão Sobre podemos conhecer melhor os objetivos dos autores.

Vale a pena acompanhar!

12.2.06

Agora somos todos dinamarqueses

JEFF JACOBY
COLUNISTA DO "BOSTON GLOBE"

Comer carne bovina é sacrilégio para os hindus. Então quando, no outono passado, um supermercado dinamarquês fez uma promoção de carne bovina e vitela, hindus em todo o mundo reagiram enfurecidos. A Índia retirou seu embaixador de Copenhague, e bandeiras da Dinamarca foram queimadas em Calcutá, Mumbai (ex-Bombaim) e Nova Déli. No Sri Lanka, uma multidão de hindus espancou impiedosamente dois funcionários de uma empresa dinamarquesa, e manifestantes no Nepal gritaram: "Guerra à Dinamarca!". Outros em grandes cidades depredaram lojas que vendem artigos de louça dinamarquesa ou brinquedos Lego. Duas embaixadas da Dinamarca foram atacadas com coquetéis molotov.

Nada disso aconteceu, é claro. Os hindus podem achar odioso ter carne de vaca como alimento, mas eles não recorrem a boicotes, ameaças ou violência quando não-hindus comem bifes ou hambúrgueres. Eles não exigem que todos obedeçam às restrições impostas pelo hinduísmo.
O mesmo se aplica aos cristãos, judeus, budistas ou mórmons: eles não reagem com violência quando seus sentimentos religiosos são ofendidos. Não esperam que suas crenças sejam imunes a críticas, oposição ou zombaria.

Mas os muçulmanos radicais não pensam desse jeito.
A comoção atual em torno das charges do profeta Muhammad, publicadas por um jornal dinamarquês, mais uma vez ressalta a intolerância fascista que está no cerne do islã radical.
O "Jyllands-Posten", maior jornal diário da Dinamarca, encomendou as charges para passar uma mensagem relativa à liberdade de expressão. O jornal quis protestar contra o clima de intimidação pelo qual um escritor dinamarquês não conseguiu encontrar um único ilustrador para o livro infantil que escrevera sobre o profeta Muhammad.
Nenhum artista concordara em ilustrar o livro, porque todos tinham medo de se tornar alvos de extremistas muçulmanos. Estarrecido com essa autocensura, o "Jyllands-Posten" convidou artistas dinamarqueses para fazer desenhos de Muhammad, e publicou os 12 desenhos que recebeu.

A maioria dos desenhos é branda a ponto de ser maçante, especialmente quando comparada às charges mordazes que corriqueiramente aparecem em jornais americanos e europeus.
Algumas dessas charges vinculam Muhammad ao terrorismo islâmico -uma delas o retrata com uma bomba no turbante, e uma segunda o mostra no paraíso, dizendo aos terroristas recém-chegados: "Parem! Parem! O estoque de virgens acabou!".
Outras das charges focalizam a ameaça à liberdade de expressão. Em uma delas, um artista está sentado diante de sua prancheta, nervoso e suado, desenhando Muhammad, e ao mesmo tempo olha sobre o ombro para se assegurar de não estar sendo vigiado.
A idéia de que algo tão brando assim pudesse desencadear uma reação tão desvairada -tumultos, ameaças de morte, seqüestros, queima de bandeiras- revela muitíssimo sobre o abismo que separa os valores do mundo civilizado dos que vigoram em grande parte do mundo islâmico.
Liberdade de imprensa, o mercado de idéias, o direito de espicaçar vacas sagradas: o islã militante não conhece nada disso. E, se os jihadistas conseguirem seu intento, tudo isso será eliminado em toda parte pela censura e a intolerância da sharia.
Algumas vozes muçulmanas corajosas e dispersas têm se manifestado contra os queimadores de livros. O jornal jordaniano "Shihan" publicou três das charges. "Muçulmanos do mundo, sejam razoáveis", suplicou o editor Jihad al Momani, em editorial publicado no jornal. "O que causa mais prejuízos ao islã? Essas caricaturas, ou fotos de um seqüestrador degolando sua vítima diante da câmera?"
Em questão de horas, porém, Momani estava desempregado -demitido depois que o governo jordaniano ameaçou tomar medidas legais.
Momani não é o único editor a ter sido demitido nos últimos dias. Em Paris, Jacques Lefranc, do diário "France Soir", também perdeu seu emprego depois de publicar as charges de Muhammad. O proprietário do jornal, um copta egípcio chamado Raymond Lakah, divulgou um comunicado orwelliano, em tom abjeto, oferecendo a cabeça do editor como gesto de "respeito pelas crenças e convicções íntimas de cada indivíduo".
Mas a equipe do "France Soir" defendeu a decisão dele de publicar as charges, num editorial corajoso. "A melhor maneira de lutar contra a censura é impedir que a censura aconteça", disseram os jornalistas. "Um princípio fundamental que garante a democracia e a sociedade secular se encontra ameaçado. Não dizer nada equivale a bater em retirada."
Em todo o continente, quase duas dúzias de outros jornais já se uniram na defesa desse princípio. Enquanto clérigos islâmicos proclamam um "dia internacional da ira" ou declaram que "a guerra começou", importantes publicações de Noruega, França, Itália, Espanha, Holanda, Alemanha, Suíça, Hungria e República Tcheca reproduziram as charges dinamarquesas.
No entanto não houve demonstração comparável de coragem nos EUA.
Não devemos nos deixar enganar: esse assunto não vai desaparecer, como tampouco vai desaparecer a ameaça islamo-fascista. A liberdade de expressão que temos como algo garantido e certo está sofrendo forte ameaça e, se não for bravamente defendida, pode desaparecer.
Hoje os censores podem estar combatendo algumas charges pouco engraçadas de Muhammad, mas amanhã serão nossas palavras e idéias que eles tentarão por todos os meios silenciar. Gostemos disso ou não, agora somos todos dinamarqueses.

9.2.06

Entrevista: Michel Onfray

Revista Veja, 2005

Em um tempo em que a religiosidade está em alta, surpreende o livro que se encontra no topo da lista dos mais vendidos na França desde o mês passado, à frente até das biografias de João Paulo II: Tratado de Ateologia. Escrita pelo filósofo mais popular da França na atualidade, Michel Onfray, de 46 anos, a obra é um ataque pesado ao que o autor classifica como "os três grandes monoteísmos". Segundo Onfray, por trás do discurso pacifista e amoroso, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo pregam na verdade a destruição de tudo o que represente liberdade e prazer: "Odeiam o corpo, os desejos, a sexualidade, as mulheres, a inteligência e todos os livros, exceto um". Essas religiões, afirma o filósofo, exaltam a submissão, a castidade, a fé cega e conformista em nome de um paraíso fictício depois da morte.

Para defender essa argumentação, Onfray valeu-se de uma análise detalhada dos textos sagrados, cujas contradições aponta ao longo de todo o livro, e do legado de outros filósofos, como o alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), que proclamou, em uma célebre expressão, a "morte de Deus". O filósofo escreve em linguagem acessível, a mesma que emprega ao lecionar na cidade de Caen, no norte da França. Ali criou uma "universidade popular" que atrai milhares de pessoas a palestras diárias e gratuitas sobre filosofia, artes e política. Gravadas pela rádio pública France Culture, as aulas de Onfray são sucesso de audiência. Os fãs o consideram um sucessor de Michel Foucault (1926-1984), o mais influente filósofo francês do século passado. Em seus livros, Onfray propõe o que chama de "projeto hedonista ético", em que defende o direito do ser humano ao prazer. Uma de suas obras, A Escultura de Si, ganhou em 1993 o Prêmio Médicis, o mais importante da França para jovens autores. Onfray também tem detratores, que o acusam de repetir idéias ultrapassadas. Em dois meses seu Tratado vendeu 150.000 exemplares. De seu escritório em Argentan, Onfray concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – Em sua opinião, só o ateu é verdadeiramente livre?

Onfray – Só o homem ateu pode ser livre, porque Deus é incompatível com a liberdade humana. Deus pressupõe a existência de uma providência divina, o que nega a possibilidade de escolher o próprio destino e inventar a própria existência. Se Deus existe, eu não sou livre; por outro lado, se Deus não existe, posso me libertar. A liberdade nunca é dada. Ela se constrói no dia-a-dia. Ora, o princípio fundamental do Deus do cristianismo, do judaísmo e do Islã é um entrave e um inibidor da autonomia do homem.

Veja – A que o senhor atribui o sucesso de seu livro num momento em que há tanta discussão sobre religiosidade?

Onfray – Acho que muitos franceses esperavam uma declaração claramente atéia. As primeiras páginas de jornais e as capas de revistas sobre o retorno da religiosidade, a polêmica sobre o direito de usar ou não o véu muçulmano na escola leiga, a oposição maniqueísta entre um eixo do bem judeo-cristão e um eixo do mal muçulmano, a obrigação de escolher um lado entre George W. Bush e Osama bin Laden, a religiosidade dos políticos exposta na imprensa, o crescimento do Islã nos subúrbios franceses, tudo isso contribuiu para uma presença monoteísta forte no primeiro plano da mídia. Meu livro provavelmente funciona como um antídoto a esse estado de coisas, pelo menos na França. Ele ainda está sendo traduzido para outros idiomas.

Veja – Seu livro defende um ateísmo "fundamentado, construído, sólido e militante". Isso quer dizer que é preciso convencer as pessoas da inexistência de Deus?

Onfray – Isso quer dizer que, quando uma pessoa não se contenta apenas em acreditar estupidamente, mas começa a fazer perguntas sobre os textos sagrados, a doutrina, os ensinamentos da religião, não há como não chegar às conclusões que eu proponho. Trata-se de não deixar a razão, com R maiúsculo, em segundo plano, atrás da fé – e sim dar à razão o poder e a nobreza que ela merece. Essa é a missão, a tarefa e o trabalho do filósofo, pelo menos de todo filósofo que se dê ao respeito.

Veja – A desconstrução dos três grandes monoteísmos equivale a mostrar que o rei está nu, como na fábula de Hans-Christian Andersen?

Onfray – Sim. É preciso mostrar que o rei está nu, deixar claro que o mecanismo das religiões é o de uma ilusão. É como um brinquedo cujo mistério tentamos decifrar quebrando-o. O encanto e a magia da religião desaparecem quando se vêem as engrenagens, a mecânica e as razões materiais por trás das crenças.

Veja – O senhor cita constantemente trechos do Corão, da Bíblia e da Torá para apontar contradições. Por que razão, se em muitos casos esses trechos nem são mencionados pelos religiosos na defesa de suas convicções?

Onfray – Os sacerdotes limitam-se a usar apenas um punhado de palavras, textos e referências, sempre postos em evidência porque são aqueles trechos que permitem assegurar melhor o domínio sobre os corpos, os corações e as almas dos fiéis. A mitologia das religiões precisa de simplicidade para se tornar mais eficaz. Elas fazem uma promoção permanente da fé em detrimento da razão, da crença diante da inteligência, da submissão ao clero contra a liberdade do pensamento autônomo, da treva contra a luz.

Veja – Seu livro cita contradições entre a pregação da paz e a da violência. O senhor pode dar os exemplos mais marcantes dessa situação?

Onfray – O famoso sexto mandamento da Torá ensina: "Não matarás". Linhas abaixo, uma lei autoriza a matar quem fere ou amaldiçoa os pais (Exodo 21:15 e adiante). Nos Evangelhos, lê-se em Mateus (10:34) a seguinte frase de Jesus: "Não vim trazer a paz, e sim a espada". O mesmo evangelista afirma a todo instante que Jesus traz a doçura, o perdão e a paz. O Corão afirma que "quem matar uma pessoa sem que ela tenha cometido homicídio será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade" (quinta sura, versículo 32). Mas ao mesmo tempo o texto transborda de incitações ao crime contra os infiéis ("Matai-os onde quer que os encontreis", segunda sura, versículo 191), os judeus ("Que Deus os combata", nona sura, versículo 30), os ateus ("Deus amaldiçoou os descrentes", 33ª sura, versículo 64) e os politeístas ("Matai os idólatras, onde quer que os acheis", nona sura, versículo 5).

Veja – O livro ataca com virulência particular o apóstolo Paulo, descrevendo-o como um histérico. Por quê?

Onfray – Basta ler os Atos dos Apóstolos, nos trechos que descrevem a conversão de Paulo, e conhecer um pouco de psiquiatria, ou ter um manual de psicologia ao alcance da mão, para ver quanto os sintomas da visão que originou sua conversão coincidem com os descritos pelos especialistas em histeria: perda de tônus muscular, queda, cegueira momentânea etc. Ao me referir a Paulo, eu não emprego o termo neurose como um insulto de caráter moral, mas como um diagnóstico que pode ser estabelecido por um psiquiatra.

Veja – Há uma diferença entre ser contra as religiões e não acreditar na existência de Deus?

Onfray – É possível acreditar em Deus e viver sem religião. Mas não conheço religião que viva sem Deus. Trata-se do mesmo combate, verso e reverso da mesma medalha.

Veja – Mas não são poucos os que sustentam que a necessidade de Deus é inerente ao ser humano. Há quem acredite que essa necessidade é genética.

Onfray – Essa necessidade é cultivada culturalmente. É claro que não existe. Muito menos geneticamente. Essa é uma idéia ridícula. Não há nada no cérebro além daquilo que é posto nele. Já se viu alguma criança – imagem do que pode haver de mais natural – nascer acreditando em algum deus ou em alguma transcendência? Deus e a religião são invenções puramente humanas, assim como a filosofia, a arte ou a metafísica. Essas criações, é bem verdade, respondem a necessidades, como a de esconjurar a angústia da morte, mas podemos reagir de outra forma: por exemplo, com a filosofia.

Veja – Como o senhor explica o fato de muitos cientistas, diante da impossibilidade de explicar a imensa complexidade do universo, se voltarem para a hipótese da criação divina?

Onfray – O recurso a Deus e à transcendência é um sinal de impotência. A razão não pode tudo. Deve ser consciente de suas possibilidades. Quando ela não consegue provar alguma coisa, é preciso reconhecer essas limitações e não fazer concessões à fábula, ao pensamento mitológico ou mágico. A idéia da criação divina é uma espécie de doença infantil do pensamento reflexivo.

Veja – Como filósofo ateu, como o senhor viu a forte comoção popular pela morte do papa?

Onfray – Tamanho fervor deve ser relacionado com o fato de que João Paulo II foi de fato o primeiro "papa catódico", o primeiro sumo pontífice da era da comunicação de massa. Foi o homem mais filmado do planeta. Logo, era o maior portador da aura que a mídia confere. A maioria das pessoas tem fascínio pelos ícones eleitos pela mídia e acredita mais neles do que na verdade física. Daí a estranha sensação quando a TV prova que por trás daquela imagem divinizada havia alguém bem real, de carne e osso. Isso ficou demonstrado, na morte do papa, pelo uso espetaculoso da exposição do cadáver e pela criação de uma reação histérica entretida e amplificada pela transmissão televisiva.

Veja – O senhor retoma casos recentes e antigos em que o papel da Igreja Católica não foi dos melhores: ataques a Galileu, silêncio diante do holocausto ou do genocídio em Ruanda. Mas é possível encontrar outros tantos exemplos de bons momentos do catolicismo. Isso não mostra que o problema não são as religiões e sim os homens que as interpretam?

Onfray – Não me proponho a escrever uma resposta ao livro O Gênio do Cristianismo (obra de 1802 do escritor francês François-René de Chateaubriand, que refutava os filósofos anti-religiosos de seu tempo). O que quero é mostrar que as religiões, que dizem querer promover a paz, o amor ao próximo, a fraternidade, a amizade entre os povos e as nações, produzem na maior parte do tempo o contrário. Não me parece muito digno de interesse que os monoteísmos possam ter gerado o bem aqui ou acolá. Afinal, é a isso mesmo que eles dizem se propor. Não há motivo para espanto. Em compensação, que se devam a eles tantas barbaridades terrenas, extremamente humanas, me parece muito mais importante como prova da inanidade das doutrinas.

Veja – Críticos católicos alegam que seu livro nada fez senão repetir antigos argumentos contra a religião. Quais são seus argumentos novos?

Onfray – Não se pode fazer muito a respeito, a não ser dizer e redizer o que é verdade há muito tempo. E repetir que os cristãos têm pouca moral para me reprovar por dizer antigas verdades, quando eles mesmos propagandeiam erros ainda mais antigos.

Veja – Não se pode negar que a religião proporciona valores morais e éticos a muitas pessoas que de outra forma não os teriam. Isso, por si, não bastaria para justificar a existência das religiões?

Onfray – Se não houvesse alternativa, certamente. Mas há. A filosofia permite a cada um a apreensão do que é o mundo, do que pode ser a moral, a justiça, a regra do jogo para uma existência feliz entre os homens, sem que seja preciso recorrer a Deus, ao divino, ao sagrado, ao céu, às religiões. É preciso passar da era teológica à era da filosofia de massa.

Veja – O senhor acha que um dia o mundo será predominantemente ateu?

Onfray – Não. A fraqueza, o medo, a angústia diante da morte, que são as fontes de todas as crenças religiosas, nunca abandonarão os homens. Por outro lado, é preciso que alguns espíritos fortes, para usar uma expressão do século XVII, defendam as idéias justas. A questão é converter novos espíritos fortes. Só isso já seria muita coisa.

Veja – Quando e como o senhor se tornou ateu?

Onfray – Até onde consigo me lembrar, sempre fui ateu, a não ser na infância, quando acreditava na mitologia católica como se acredita em Papai Noel ou nas lendas do folclore. A história contada pelo catolicismo tem tanto valor quanto essas. Está no mesmo nível dos contos da carochinha, em que os animais conversam e os ogros comem criancinhas. Assim que um embrião de razão habitou meu espírito, não me importei mais com esse pensamento mágico – que só serve, justamente, para as crianças.

Veja – Do que se trata, exatamente, a "universidade popular" que o senhor criou?

Onfray – Eu criei essa universidade, com um grupo de amigos, três anos atrás, com o objetivo de proporcionar um saber filosófico exigente ao maior número possível de pessoas, de todas as origens, sem distinção de classe, religião, sexo, idade, formação, poder aquisitivo ou nível intelectual. E, ao mesmo tempo, permitir a construção de si mesmo como pessoa livre, independente e autônoma. Organizamos seminários sobre idéias feministas, política, cinema, arte contemporânea ou psicanálise, entre outros. Também temos uma oficina de filosofia para crianças. No que me diz respeito, ensino uma contra-história da filosofia – atéia, materialista, sensualista, hedonista, anarquista.

Veja – Que tipo de público freqüenta seus cursos?

Onfray – O público é indefinível, verdadeiramente popular: jovens, velhos, homens, mulheres, universitários, gente sem diploma, trabalhadores especializados, como pilotos de Airbus e neurocirurgiões, não qualificados ou desempregados, como os demitidos de uma montadora de automóveis da região.

Veja – A idéia está dando certo?

Onfray – O princípio dela já permitiu que se espalhe por cinco ou seis outras cidades. Há outros projetos de expansão.

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Site oficial do filósofo Michel Onfray


5.2.06

O Pé Grande

Será que realmente existe um primata gigantesco percorrendo as regiões selvagens do planeta? Ou o Pé Grande e seus primos de todo o mundo são apenas criações de nossa imaginação?

Examine as evidências juntamente com quem aqueles que acreditam e desconfiam deste mito: ouça as histórias sobre terríveis encontros, veja as pegadas gigantescas e acompanhe o famoso filme de 1967. Siga a trilha das investigações – e uma verdadeira caçada ao pé grande.

É a ciência em busca da mais esquiva das criaturas lendárias…





Programação
8 de fevereiro às 11h, 16h e 20h




Para conhecer melhor a lenda do Pé Grande leia também a matéria do Ceticísmo Aberto

Tráfico é acusado de vetar umbanda no Rio

Traficantes de drogas estão proibindo ou restringindo as religiões afro-brasileiras, como a umbanda e o candomblé, em favelas do Rio de Janeiro, segundo relatos de líderes de associações de moradores e religiosos ouvidos pela Folha. Terreiros foram fechados e, em 2002, um pai-de-santo foi assassinado.

Para representantes de religiões afro, um dos motivos seria o envolvimento de traficantes ou seus familiares com igrejas evangélicas, que têm correntes que associam a umbanda e o candomblé a manifestações demoníacas.

No morro do Dendê, na Ilha do Governador (zona norte), Fernando Gomes de Freitas, o Fernandinho, acusado de liderar o tráfico local e que se diz evangélico, determinou o fechamento de ao menos três terreiros nos últimos meses e proibiu que pessoas circulem pela favela com cordões ou pulseiras com alusão às religiões afro, segundo testemunhos ouvidos pela Folha.

Despachos de macumba e reuniões são proibidos nas ruas do complexo de favelas de Senador Camará (zona oeste), onde traficantes freqüentam cultos da Igreja Assembléia de Deus dos Últimos Dias. Um dos adeptos era Róbson André da Silva, o Robinho Pinga, chefe do tráfico local e atualmente preso. Na sua apresentação pela polícia, Robinho Pinga apareceu com uma bíblia e afirmando-se evangélico.

Nas favelas de Jacarezinho, Mangueira, Manguinhos e Vigário Geral, todas nas zona norte e onde a venda de droga é dominada pelo Comando Vermelho, os terreiros não têm mais sessões.

Há cerca de um mês, um traficante ameaçou agredir uma mulher em Manguinhos, porque ela se disse adepta da religião afro.

A polícia já flagrou a participação de traficantes em cultos próximos de pontos de venda de droga. Alberico Azevedo de Medeiros, o Derico, acusado de liderar a venda de drogas na favela de Acari (zona norte), foi filmado orando num palco de uma igreja evangélica, pouco antes de ser preso.

Um pai-de-santo foi morto na favela da Carobinha, em Campo Grande, em 2002, por divergências religiosas com o então presidente da associação de moradores, suspeito de ligação com o tráfico, dizem líderes comunitários.

No morro da Fazendinha, no complexo do Alemão (zona norte), os traficantes mandaram fechar dois terreiros no ano passado, porque o som dos atabaques atrapalhava o movimento de drogas e a percepção deles sobre uma possível ação da polícia.

No ano passado, um centro de umbanda foi fechado em Piedade (zona norte) por ordem do tráfico porque estava havendo uma guerra entre quadrilhas rivais, que temiam a infiltração policial.


Fonte: Folha de São Paulo

3.2.06

Déjà vu crônico pode ser falha na memória

A sensação de já ter visto algo anteriormente, conhecida como déjà vu, pode ser resultado de uma falha no processo de memória, acreditam pesquisadores britânicos que estudam atualmente o fenômeno.

"Acreditamos que o sintoma é causado por uma falha no lóbulo temporal, devido ao mau funcionamento de um circuito que é acionado quando alguém lembra de algo", diz Chris Moulin, que lidera pesquisa sobre o assunto na Universidade de Leeds.

Ele diz acreditar que, em pessoas com déjà vu crônico, este circuito ou é super-ativo ou fica permanentemente acionado, criando memórias que não existem.

O paciente que inspirou o estudo foi enviado ao hospital por seu clínico geral, mas não chegou a procurar os médicos por achar que já o tinha feito.

Ele até se lembrava de detalhes específicos da visita que não havia acontecido.

Memória

O paciente, um octagenário, sofre de demência. O espaço que o caso conquistou na mídia levou outras 10 pessoas com déjà vu crônico a procurarem ajuda.

Muitos deles são mais novos do que o paciente original. Todos, porém, têm em comum o fato de sofrerem também dores crônicas ou terem recebido ferimentos na cabeça. "É um novo sintoma, não uma síndrome", diz Moulin.

O médico diz que o déjà vu crônico pode afetar a vida do paciente, levando, em certos casos, à depressão. Ele diz também que o estudo pode ajudar na compreensão do processo de memória.

Mais informações:

Dicionário Cético: Deja vu

2.2.06

Nasa divulga fotos de uma das luas de Saturno

A Nasa (agência espacial norte-americana) divulgou nesta quarta-feira imagens da superfície de gelo de Dione, uma das luas de Saturno, feita por uma câmera da sonda Cassini, a 152 km de distância. Segundo a Univers Today, as fotos foram tiradas no fim de dezembro passado.


As imagens mostram crateras da Dione. Para criar a mistura de cores foram utilizadas luzes ultra-violeta com uma foto em preto e branco. A origem das diferentes cores ainda não foi compreendida pelos pesquisadores, mas pode ter sido causada pelas diferentes superfícies presentes no solo.


A missão da sonda Cassini é um projeto da Nasa, em conjunto com a Agência Espacial Européia e a Agência Espacial Italiana. A sonda e as duas câmeras dentro dela foram desenvolvidas no Instituto de Tecnologia da Califórnia.

1.2.06

Caminhando com Monstros

Em sua evolução, a Terra já passou por momentos onde criaturas e plantas eram tão extraordinárias que qualquer pessoa acreditaria estar contemplando outro planeta. Em fevereiro, o Discovery Channel transporta os telespectadores a este mundo dominado por gigantescos escorpiões e répteis pré-dinossáuricos.

Dividida em três partes, Caminhando Com Monstros acompanha a história das bizarras criaturas que dominaram o nosso planeta milhões de anos antes dos dinossauros. A série apresenta a surpreendente verdade sobre a origem da vida na Terra e sobre como os humanos devem sua existência a “monstros” muito além da nossa imaginação. No período Cambriano (há 550 milhões de anos), surgem os predadores. Aparecem dentes, garras, bicos e todo tipo de armas. Foi uma era de grande variedade, onde incontáveis criaturas nadavam, andavam e rastejavam na água, incluindo oTrilobite, que deu origem aos caranguejos e insetos, e o Haikouichthys, ancestral de todos as criaturas com espinha dorsal.

Durante o Período Siluriano (há 410 milhões de anos), as criaturas marinhas começam finalmente a realizar suas primeiras incursões em terra. Os escorpiões foram o primeiro grupo a fazê-lo com êxito. Mas a era dos escorpiões terminou no Período Devoniano (há 360 milhões de anos), quando os peixes se tornaram os principais predadores. Alguns se aventuraram por terra e encontraram um meio ambiente tão atraente que suas barbatanas endureceram e dedos cresceram em suas pontas.

As plantas finalmente conseguem fixar-se no solo durante o Período Carbonífero (há 300 milhões de anos). Esta foi uma época de pantanais densos, libélulas de um metro de comprimento e enormes aranhas. O mais extraordinário de todos, porém, foi o Arthropleura – um animal que parecia uma centopéia de três metros, mas que se movia como uma anaconda. Um novo grupo de plantas e animais dominou após a era glacial do Período Permiano (há 280 milhões de anos) e que acabou com os pantanais. Entre eles, répteis que podiam tolerar condições climáticas secas e frias. O rei dos répteis era o Dimetrodonte, um gigante com barbatanas.
Finalmente, durante a última parte do Período Permiano (há 240 milhões de anos), a terra havia se transformado em um planeta deserto e a maior extinção em massa jamais vista aconteceu. Apenas cinco por cento dos seres vivos sobreviveram. Nesta época, o lento e herbívoro Lystrosouros representava oitenta por cento dos seres vivos.






Programação: de 3 a 5 de fevereiro sempre as 20h